Há uma surpresa na campanha presidencial francesa: Jean-Luc Mélenchon. Começou voando baixo, com vocação de candidato nanico. Desde fevereiro, porém, cresceu, ultrapassou o patamar dos 10% dos votos e, pelas últimas pesquisas realizadas em 11-12 de abril, considerados seis institutos, já oscila entre 13- 17% das intenções de voto. Quem é Jean-Luc Mélenchon?O homem nasceu no Marrocos, mas virou francês desde cedo. Autodefine-se como socialista, republicano e maçom. Nos idos da juventude, nos anos 1960, esteve entre os que amavam a revolução. Quando esta fugiu dos radares, filiou-se ao partido socialista, nas alas mais críticas, e foi um fugaz ministro de Estado. Mas acabou, como tantos outros, desencantado com o reformismo pálido e a nenhuma ousadia do socialismo francês. Daí migrou para um partido alternativo — o Partido de Esquerda, que ajudou a fundar. É por este partido que disputa agora a presidência.
Uma trajetória sujeita a controvérsias, mas o que importa é menos a pessoa do candidato, e mais os compromissos que assume, o que isto exprime, as gentes que ele tem conseguido aglutinar e mobilizar, e os desafios para o futuro.
Mélenchon tem dito coisas esquecidas. Que passar o tempo sobrevivendo, não é viver. Que não se pode ser feliz num oceano de infelicidade. Que não dá para viver sem empregos estáveis — há dez milhões de franceses em trabalhos ditos “precários”, ou seja, podem ir para o olho na rua a qualquer momento. Que não é razoável que só paguem pela catástrofe provocada pela crise os trabalhadores assalariados, que não é justo que se cortem, em nome da austeridade, verbas de serviços sociais básicos, como saúde e educação.
Nos discursos que faz, Mélenchon exige contas. O atual presidente, Nicolas Sarkozy, precisa prestar contas, ele e as elites sociais, as chamadas quinhentas famílias, cujo padrão de vida assemelha- se ao da aristocracia derrubada pela grande revolução de fins do século XVIII. Prestar contas por espalhar o medo e a infelicidade. Por ter imposto padrões mesquinhos de contabilidade, a cujo deve-e-haver escaparam o bem-estar da sociedade e a capacidade de sonhar que todo povo tem o direito de cultivar.
O que propõe Mélenchon? Distribuição das riquezas, transição energética, planificação ecológica, transformações democráticas radicais, requisição das empresas que fecham, entregando-as à administração dos trabalhadores, controle da especulação financeira, reorganização da Europa segundo os princípios da justiça social, antiga ideia-força da social-democracia, tão encolhida e desleixada desde os anos 1980. A tudo isto o homem dá o nome de insurreição cidadã.
As propostas, as ideias e a maneira de falar exprimem uma profunda insatisfação que perpassa o continente europeu e também a França. As pessoas dão-se conta que os partidos políticos — de direita e de esquerda — não têm feito senão gerenciar a crise em benefício de um sistema voraz em vidas humanas, e pior, insuscetível de generalização — pode-se imaginar o que aconteceria se a proporção carros/ habitantes ou hambúrgueres/habitantes existente nos EUA ganhasse escala universal?
Há uma profunda — e crescente — desconfiança que se dissemina e que, em passado recente, foi sugada por partidos de direita e de extrema-direita. As esquerdas na França já tiveram que votar na direita para escapar das garras da extrema-direita. Na Espanha, a abstenção recorde levou ao poder partidos de direita. Pois a campanha de Mélenchon está quebrando este padrão vicioso. Combina a luta institucional com o apelo da rua, criando um dinamismo de esquerda. Expressão maior disso é o fato de que o próprio candidato do partido socialista — o incolor François Hollande — tenha incorporado um discurso de crítica à desordem capitalista. Outro índice: uma parte importante do eleitorado de Marine Le Pen (16%), da extrema- direita, anuncia intenção de votar no candidato socialista no segundo turno. Sem contar 33% de indecisos.
Por isso é que Mélenchon tem aglutinado tanta gente fina: sindicalistas, militantes de movimentos sociais, ecologistas, feministas, antirracistas. Além de seu partido — o Partido de Esquerda — o apoiam a Esquerda Unitária, a Federação por uma Alternativa Social e Ecológica, os chamados alternativos, o Partido Comunista e mesmo dirigentes de organizações de extrema-esquerda. Um comício na Praça da Bastille, em Paris, reuniu 120 mil pessoas em 19 de março passado. Dias depois, 70 mil em Toulouse. Em toda a parte, reúnemse multidões. Ativas, críticas, bemhumoradas, irreverentes, resgatando as melhores tradições de esquerda — republicanas, democráticas e socialistas.
A campanha eleitoral francesa entra agora na última semana, decisiva, mesmo porque a legislação determina, na reta final, tempo igual nos meios de comunicação para todos os candidatos. Seja qual for a performance de Mélenchon, o grande desafio, desde já, é que as forças — consideráveis — que se reuniram em torno de sua campanha organizem-se de forma autônoma, impedindo que o próximo governo, seja ele qual for, permaneça sustentando as políticas atuais comprometidas com o desperdício do trabalho, a destruição das riquezas e a infelicidade humana.
Daniel Aarão Reis, O Globo, 17/04/2012
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