Páginas

domingo, 27 de maio de 2012

Bento XVI e as monjas rebeldes

Entre os fiéis, a mobilização indignada adquiriu a forma de uma insurreição contra a autoridade papal

Nas organizações religiosas, aquele que mostra uma controvérsia em matéria de doutrina geralmente encobre, na realidade, uma luta pelo poder eclesiástico. Uma forma rápida de debilitar um grupo rival é passar ao conhecido recurso de acusálo de heterodoxia ou de heresia. Esse procedimento, que desencadeou sangrentas guerras religiosas na Europa durante os séculos XVI e XVII, explica boa parte da violência que sacudiu o mundo islâmico na atualidade. No Ocidente, perdeu força o fanatismo doutrinário e se firmou o conceito de tolerância religiosa. Mas os velhos atavismos persecutórios, que tanto sofrimento causaram, não desapareceram de todo, se bem que se manifestam atrás de uma fachada menos brutal. Essas reflexões adquirem validade com a agressão feita pela Congregação para a Doutrina da Fé, a antiga Inquisição, contra a Conferência da Liderança de Mulheres Religiosas.

Acusa-se esta associação, à qual pertencem 80% das 57 mil monjas nos Estados Unidos, de graves faltas de heterodoxia, de defender um feminismo radical e de se ocupar excessivamente dos pobres. O Papa Bento XVI, que dirigia a entidade inquisitorial quando era cardeal, encarregou o bispo de Seattle de punir as monjas dissidentes. Entre os motivos para a iniciativa do Vaticano pode mencionar-se o apoio expressado pelas religiosas à reforma do sistema de saúde preconizada pelo presidente Obama, à qual se opunham os bispos. Igualmente, enquanto alguns bispos americanos se encontram na defensiva por sua passividade cúmplice em casos de pedofilia sacerdotal em suas dioceses, as religiosas se puseram ao lado das vítimas e, às vezes, denunciaram clérigos culpados de delitos contra crianças.

O anúncio do procedimento disciplinar papal contra uma comunidade que se distingue por sua entrega e sua solidariedade produziu espanto entre agnósticos, não crentes e ainda entre ovelhas desgarradas devido à síndrome de Roma veduta, fede perduta (Roma vista, fé perdida). Para uns e outros, o trabalho abnegado das monjas em favor dos enfermos, dos idosos e dos indigentes encarna a versão da Igreja como o povo de Deus, tal como promoveu João XXIII. Entre os fiéis, a mobilização indignada de apoio às religiosas e o oferecimento de doações adquiriu a forma de uma insurreição aberta contra a autoridade papal. O que sublinha o fervoroso sentimento de identificação com as monjas é o rechaço, por parte dos fiéis, da tentativa da Cúria Vaticana de suprimir as reformas do Concílio Vaticano II.

A hierarquia eclesiástica deveria refletir antes de extremar seu rigor contra as religiosas, aparentemente indefesas, mas que dispõem de uma enorme legitimidade e de amplo apoio entre a sociedade. Em 1521, Leão X, um antecessor de Bento, excomungou um monge agostiniano alemão que protestara contra o escândalo da venda de indulgências e a corrupção na corte papal. Este episódio não teve um desenlace feliz para o catolicismo.

RODRIGO BOTERO MONTOYA é economista e foi ministro da Fazenda da Colômbia.

Rodrigo Montoya, O Globo, 27/05/2012.

Nenhum comentário: