Na quarta-feira passada, quando Barack Obama garantiu mais uma vaga na história
ao defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Cory Booker, o popular
prefeito negro de Newark, disparou pelo Twitter: vou dar entrevista, assim
"que eu parar de dançar". A importância do anúncio feito por Obama
ainda é muito recente para ser compreendida, mas, que tal mandarmos o cinismo
dar uma volta ali na esquina? Podemos, por um momento, deixar de lado o
escrutínio do cálculo político que fez com que o presidente assumisse o risco
de alienar eleitores-chave em novembro? Imagine se um político racista
conseguisse introduzir um plebiscito na Carolina do Sul, onde a bandeira
confederada, símbolo da luta contra a abolição da escravatura, continua
desfraldada na capital. O dito plebiscito perguntaria aos eleitores se a
proibição das práticas eleitorais que impediam negros de votar e o fim da
segregação em escolas públicas, conquistas do Ato de Direitos Civis de 1964,
devem ser revogadas.
A "evolução de opinião" sobre o assunto, que Barack Obama alega, é refletida numa das mais incomuns evoluções estatísticas nos Estados Unidos. Em 1996, 65% da população geral se manifestava contra o casamento gay, 27% a favor. Uma nova pesquisa do Pew revela 47% a favor, 43% contra. O anúncio de quarta-feira acendeu os púlpitos das igrejas protestantes americanas. Sabemos que a Proposition 8, passada há quatro anos para banir o casamento gay na Califórnia, contou com quase 60% de apoio dos negros, mobilizados por seus pastores.
Mais de 95% dos negros americanos votaram em Obama em 2008 e continuaram a apoiar o presidente, apesar de constituir a minoria mais punida pelo crash de 2008. A mídia americana, predominantemente branca, voltou a sugerir que os negros são homofóbicos e vão ficar em casa em novembro. Aposto minha coleção de CDs do Paulinho da Viola que eles vão votar em massa em Barack Obama.
Sim, a cara da militância gay americana ainda é um homem branco de meia-idade e de classe média alta. Os líderes religiosos que demonizam a estabilidade de famílias lideradas por pessoas do mesmo sexo fariam por bem observar que 66% das crianças negras americanas são criadas por mães ou pais solteiros. Entre os brancos, esse número cai para 24%. Sim, são principalmente os brancos afluentes que insistem no burguês direito de se casar. Um negro que vive abaixo da linha da pobreza terá mais dificuldade de apresentar um companheiro à família e esta é uma fonte de distorção estatística. Mas, em vez de contemplar o fato com escárnio, podemos lembrar que Obama mudou de opinião sob pressão de Michelle e das filhas Sasha e Malia. As meninas frequentam colegas de escola que são criadas por gays e lésbicas e aproximaram o pai do absurdo da intolerância. Quanto mais as pessoas convivem com gays assumidos e ajustados, maior a tolerância.
Graças a um gesto simbólico do primeiro presidente negro americano, um gesto que não implica burocracia ou imposição legal, quantas famílias estarão, hoje à noite, fazendo as pazes?
Lúcia
Guimarães, O Estado de São Paulo, 14/05/2012.

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