Pilhas de Getúlios Vargas atulham o escritório do jornalista Lira Neto em seu
apartamento no bairro paulistano de Perdizes -os que se veem nesta página mal
dão para contar a história. Misturados a livros e revistas sobre o líder
trabalhista gaúcho, há um Getulinho joão-bobo em madrepérola com a inscrição
"Sempre em Pé", a reprodução emoldurada de uma capa da revista "Time" com a foto do político,
broches, bonequinhos em metal, cerâmica e madeira. Há até um naco de tijolo da
casa de Getúlio em São Borja (RS). "Eu me cerco muito, que é para o santo
baixar. O personagem tem que permear minha vida", afirma Lira, autor de
uma biografia de Getúlio cujo primeiro volume acaba de chegar às livrarias. Anunciada
hiperbolicamente pela Companhia das Letras como "a biografia mais completa
já escrita sobre um político brasileiro", a obra terá três volumes.
Como possivelmente
se trata da figura pública sobre a qual mais se escreveu no país, desde que
veio a público a tese, sustentada pelo autor, de que será a primeira biografia
"moderna", ou "jornalística", de Getúlio, surgiram as
primeiras contestações quanto ao ineditismo de certos aspectos do trabalho.
Ambivalência
de Getúlio atraiu biógrafo
Para Lira Neto,
cuja mãe é 'getulista de carteirinha', político ainda divide opiniões porque
'fez bem e mal ao país'
Afirmação do
jornalista sobre pioneirismo de pesquisa para o livro faz professor gaúcho
chamá-lo de "picareta"
Coincidentemente
batizada com o mesmo nome da mulher de Getúlio Vargas, Darcy, a mãe de Lira
Neto, ainda é, aos 84 anos, "uma getulista muito ferrenha". Quando o
jornalista anunciou que escreveria uma biografia do político, dona Darcy lhe
disse: "Não vá falar mal do meu velhinho". O episódio é revelador do
campo minado que enfrenta quem se arrisca a esquadrinhar a vida e o legado do
político mais controverso da história brasileira, protagonista ao mesmo tempo
de governos ditatoriais e de conquistas trabalhistas e sociais. "Getúlio
Vargas é fascinante justo pela impossibilidade de classificá-lo de forma única,
por seu potencial de ambivalência. Fez muito bem e muito mal ao país, e sua
herança continua a dividir opiniões", diz o biógrafo. Antes mesmo de ser
lançado, o próprio trabalho de Lira já provocou controvérsia. Getúlio foi
acusado por adversários, notadamente Carlos Lacerda, de participação em ao
menos dois assassinatos, um aos 15 anos (de um estudante, numa briga em Ouro
Preto), outro quando já era político (de um índio no RS). Nos dois casos, Getúlio era inocente - no
segundo o condenado era um homônimo.
CONTROVÉRSIA
Ao afirmar, no ano passado, que esclarecera as duas acusações tendo acesso a arquivos de forma pioneira, Lira Neto foi contestado. O historiador, sociólogo e professor gaúcho Juremir Machado da Silva, autor de um romance biográfico sobre Getúlio, escreveu um artigo no jornal porto-alegrense "Correio do Povo" dizendo que ambas as histórias já estavam esclarecidas em outras obras e que Lira "tem tudo para ser picareta histórico". À Folha, completou: "Lira anunciou ter descobertos coisas que todo historiador conhece. Não sei se ele fez um bom livro, porque não o li, mas começou mal, soa como operação de marketing".
Ao afirmar, no ano passado, que esclarecera as duas acusações tendo acesso a arquivos de forma pioneira, Lira Neto foi contestado. O historiador, sociólogo e professor gaúcho Juremir Machado da Silva, autor de um romance biográfico sobre Getúlio, escreveu um artigo no jornal porto-alegrense "Correio do Povo" dizendo que ambas as histórias já estavam esclarecidas em outras obras e que Lira "tem tudo para ser picareta histórico". À Folha, completou: "Lira anunciou ter descobertos coisas que todo historiador conhece. Não sei se ele fez um bom livro, porque não o li, mas começou mal, soa como operação de marketing".
O biógrafo admite
que há menções aos dois casos em outros livros, mas sustenta ter sido o
primeiro a pesquisar nos arquivos os inquéritos sobre os dois crimes. "Não
sou o primeiro a dizer isso, mas o primeiro a fazê-lo com base em provas
documentais. Desafio qualquer pessoa a mostrar onde estão as citações ao
inquérito original. Os documentos estavam intactos nos arquivos, fui o primeiro
a manuseá-los." "Não tenho a mínima intenção de polemizar com
Juremir, não o valorizarei a esse ponto. O polemismo é a doença infantil do
jornalismo", completou Lira.
Para o historiador
Boris Fausto, autor de livros elogiados sobre Getúlio e a Revolução de 30 e que
escreveu a contracapa da biografia de Lira, embora o lançamento não revele
"nenhuma grande novidade", "traz uma quantidade imensa de
informações e é escrito no bom estilo do jornalismo, numa narrativa muito
detalhista".
VACINA
Lira Neto nasceu em 1963, nove anos após a morte de Getúlio. De sua infância cearense, lembra do político como alguém "endeusado, um mito, o pai dos pobres". Questionado sobre qual a vacina para não se contaminar pelo Fla-Flu político-ideológico que cerca o personagem, o biógrafo respondeu: "Ser jornalista, buscar acima de tudo ser isento e contemplar o maior número de ângulos, não fechar os olhos para nenhuma interpretação. Sou um repórter". Ainda que Lira não tenha atendido integralmente ao pedido da mãe -sua biografia expõe também defeitos e contradições do biografado-, sem dúvida a figura de Vargas que predomina neste primeiro volume é mais positiva que negativa. "É que ele ainda não se tornou ditador", relativiza o biógrafo. A mãe dele não perde por esperar.
Lira Neto nasceu em 1963, nove anos após a morte de Getúlio. De sua infância cearense, lembra do político como alguém "endeusado, um mito, o pai dos pobres". Questionado sobre qual a vacina para não se contaminar pelo Fla-Flu político-ideológico que cerca o personagem, o biógrafo respondeu: "Ser jornalista, buscar acima de tudo ser isento e contemplar o maior número de ângulos, não fechar os olhos para nenhuma interpretação. Sou um repórter". Ainda que Lira não tenha atendido integralmente ao pedido da mãe -sua biografia expõe também defeitos e contradições do biografado-, sem dúvida a figura de Vargas que predomina neste primeiro volume é mais positiva que negativa. "É que ele ainda não se tornou ditador", relativiza o biógrafo. A mãe dele não perde por esperar.
Leia entrevista com o biógrafo Lira Neto
Crítica
biografia
Repleto
de detalhes novelescos, livro dá pouca ênfase às rupturas
O autor, talvez preocupado com uma leitura cinematográfica, investe nesses recortes, arriscando menos na análise
A narrativa
colorida, cheia de diálogos, cartas, discursos e reportagens, é um dos pontos
mais atraentes do primeiro volume da trilogia de Lira Neto sobre Getúlio
Vargas, maior personagem brasileiro do século 20.Lira mostra a trajetória de um
político ambíguo. Navega por sanguinolentas guerras civis no Sul e descreve a
teia do poder oligárquico. Conta como Getúlio na juventude gastava sua mesada
em charutos e livros de Comte, Zola, Darwin, Nietzsche e Saint-Simon.Lembra
como ele, já no poder, flanava por Porto Alegre e Rio, frequentando livrarias e
cafés. Horas antes do estouro da Revolução de 30, não deixou de jogar a sua
prosaica partida de pingue-pongue com a mulher, Darcy.Trata em detalhes da
articulação política para a revolução (a face militar é mais rarefeita) e da
inédita campanha popular que acabou por levar Getúlio de trem até o Catete. A
leitura prende pelo dinamismo e pelo tom quase novelesco em alguns trechos.
Títulos de
capítulos simulam manchetes exageradas. Um: "No tiroteio, um jovem tomba
morto. Seria Getúlio, aos quinze anos, o assassino?". Outro: "Índia é
estuprada e cacique, morto a tiro. O culpado é Getúlio Dornelles Vargas". No
primeiro caso, nenhuma evidência leva a crer que Getúlio seria o responsável
pela morte de um estudante num entrevero em Ouro Preto (MG). No segundo, o
criminoso era um homônimo, sem ligação com o político. Mais tarde, lembra Lira,
Carlos Lacerda derraparia nesse erro no afã de atacar Vargas.
Talvez preocupado em retratar aspectos que possam ter uma leitura cinematográfica, o autor investe nesses recortes, arriscando menos na análise. Vasculha escritos, buscando traços autoritários. O rastro desenvolvimentista é pouco explorado.
Talvez preocupado em retratar aspectos que possam ter uma leitura cinematográfica, o autor investe nesses recortes, arriscando menos na análise. Vasculha escritos, buscando traços autoritários. O rastro desenvolvimentista é pouco explorado.
Apesar de citar
trechos de um dos primeiros discursos de Getúlio, em 1906, ainda como líder
estudantil, Lira deixa de observar a defesa que Getúlio ali fez da indústria,
já com coloração nacionalista. O ponto é destacado pelo economista Pedro
Fonseca em "Vargas: O Capitalismo em Construção", lançado pela
editora Brasiliense em 1989. Com ideias cevadas no positivismo, Getúlio vai se
metamorfoseando. No governo do Rio Grande do Sul, se desprega dos preceitos
tradicionais de austeridade, toma empréstimos no exterior, investe em
infraestrutura, libera créditos e cria o banco estadual.
Tudo isso
contrariava os princípios positivistas, pelos quais o Estado não deveria gastar
o que não tivesse, comparando a gestão pública à economia doméstica, um
discurso ainda presente hoje. Lira poderia dar mais ênfase à análise dos
momentos que apontavam para rupturas. Naqueles tempos, o Rio Grande do Sul era
a única região que produzia essencialmente para o mercado interno. A geração de
Getúlio soube curar feridas intestinas e partir para costurar um projeto
nacional. Afinal, lá estava o seu mercado, e compartilhar o centro do poder
passava a ser essencial. Lira não envereda muito por esse caminho, preferindo
concentrar o texto nas saborosas tramas da queda da República Velha. É bom de
ler.
Mas o leitor acaba o livro se perguntando como aquela figura, amadurecida nas entranhas das oligarquias e pintada como um político matreiro, dissimulado, pôde dar o salto que deu.
GETÚLIO
AUTOR Lira Neto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 52,50 (664 págs.)
AVALIAÇÃO bom
Leia crítica da historiadora Marly Motta
folha.com/no1091098
Em
1907, Vargas relativiza escravidão e ataca cristianismo
DE SÃO PAULO
Em 25 de dezembro
de 1907, aos 25 anos, Getúlio Vargas foi o orador da sua turma na formatura na
Faculdade de Direito de Porto Alegre. No discurso, de 41 páginas, exalta as
virtudes da civilização grega, e, num tom cientificista e rebuscado, passeia
por biologia, psicologia, filosofia, arte e direito. Defende que a escravidão
foi importante ao progresso do homem e ataca o cristianismo, em trecho citado
por Lira Neto. Preocupada que a peça fosse usada por detratores do pai, a filha
Alzira doou o discurso à Fundação Getúlio Vargas com recomendação de que não
fosse divulgado, o que não impediu o biógrafo de consultá-lo. Leia a seguir
trechos do discurso, com ortografia original de 1907. (FV E MRA)
"E foi mais tarde sobre a soberba ruinaria da civilização greco-romana que desabrochou a flor mórbida do pessimismo christão. [...]
O amar aos outros
surgiu como uma formula egoista, "interessada no desinteresse
alheio", e a esmola é uma esperança de salvação creditada no activo da
bemaventurança. A concepção monistica da philosophia grega foi substituida por
esse dualismo absurdo, sobre-carga da maioria dos erros e prejuizos da
intelligencia humana. [...]
Christo, preocupado
com a salvação celestial menosprezou a familia, como a todos os bens da vida.
[...]
Esta religião
desnaturou a grandeza da sexualidade, a força propagadora da especie a união
dos seres numa transfusão de magnetismo amoroso, considerado como um commercio
impuro. A mulher amesquinhada, ser inferior, serpente tentadora do mal. [...]
A lucta não é a
desordem, é a obediência dos inferiores aos superiores, é a subordinação aos
mais capazes. [...]
Quando o homem não
mais eliminou os vencidos, mas escravisou-os, deu um grande passo. [...] Não
eliminaram o prisioneiro de guerra -absorveram-no, isto é, filtraram-no atravez
o agrupamento social. Reduzido ao captiveiro foi um animal de carga mais
intelligente, encarregou-se dos misteres inferiores da vida, arou a terra que
proliferou em larga messe de beneficios. O captiveiro hoje prejudicial a
economia dos povos e incompativel com a civilisação foi n'aquelle tempo um
progresso.
Leia a íntegra do
discurso de Vargas
Fabio Victor e Marco Rodrigo Almeida, Folha de São Paulo, 17/05/2012.
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