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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Quantas faces tem Getúlio?

Chega às lojas o primeiro volume de nova biografia do político mais pesquisado da história do país 
 
Pilhas de Getúlios Vargas atulham o escritório do jornalista Lira Neto em seu apartamento no bairro paulistano de Perdizes -os que se veem nesta página mal dão para contar a história. Misturados a livros e revistas sobre o líder trabalhista gaúcho, há um Getulinho joão-bobo em madrepérola com a inscrição "Sempre em Pé", a reprodução emoldurada de uma capa da revista  "Time" com a foto do político, broches, bonequinhos em metal, cerâmica e madeira. Há até um naco de tijolo da casa de Getúlio em São Borja (RS). "Eu me cerco muito, que é para o santo baixar. O personagem tem que permear minha vida", afirma Lira, autor de uma biografia de Getúlio cujo primeiro volume acaba de chegar às livrarias. Anunciada hiperbolicamente pela Companhia das Letras como "a biografia mais completa já escrita sobre um político brasileiro", a obra terá três volumes.
Com tiragem de 30 mil exemplares, dez vezes a de um lançamento comum no Brasil, o primeiro volume aborda do nascimento do político, em 1882, até a conquista do poder nacional, com a Revolução de 1930. O segundo, programado para o início de 2013, irá de 1930 a 1945 (Era Vargas e Estado Novo). E o último, que sai em 2014, abrangerá de 1945 a 1954, ano em que Getúlio se suicidou no Rio. Cearense de Fortaleza, 48 anos, autor de biografias de Castello Branco, José de Alencar, Maysa e Padre Cícero, Lira gastou dois anos e meio para concluir o primeiro tomo.
Como possivelmente se trata da figura pública sobre a qual mais se escreveu no país, desde que veio a público a tese, sustentada pelo autor, de que será a primeira biografia "moderna", ou "jornalística", de Getúlio, surgiram as primeiras contestações quanto ao ineditismo de certos aspectos do trabalho.
Ambivalência de Getúlio atraiu biógrafo

Para Lira Neto, cuja mãe é 'getulista de carteirinha', político ainda divide opiniões porque 'fez bem e mal ao país'
Afirmação do jornalista sobre pioneirismo de pesquisa para o livro faz professor gaúcho chamá-lo de "picareta"
Coincidentemente batizada com o mesmo nome da mulher de Getúlio Vargas, Darcy, a mãe de Lira Neto, ainda é, aos 84 anos, "uma getulista muito ferrenha". Quando o jornalista anunciou que escreveria uma biografia do político, dona Darcy lhe disse: "Não vá falar mal do meu velhinho". O episódio é revelador do campo minado que enfrenta quem se arrisca a esquadrinhar a vida e o legado do político mais controverso da história brasileira, protagonista ao mesmo tempo de governos ditatoriais e de conquistas trabalhistas e sociais. "Getúlio Vargas é fascinante justo pela impossibilidade de classificá-lo de forma única, por seu potencial de ambivalência. Fez muito bem e muito mal ao país, e sua herança continua a dividir opiniões", diz o biógrafo. Antes mesmo de ser lançado, o próprio trabalho de Lira já provocou controvérsia. Getúlio foi acusado por adversários, notadamente Carlos Lacerda, de participação em ao menos dois assassinatos, um aos 15 anos (de um estudante, numa briga em Ouro Preto), outro quando já era político (de um índio no RS).  Nos dois casos, Getúlio era inocente - no segundo o condenado era um homônimo.
CONTROVÉRSIA

Ao afirmar, no ano passado, que esclarecera as duas acusações tendo acesso a arquivos de forma pioneira, Lira Neto foi contestado. O historiador, sociólogo e professor gaúcho Juremir Machado da Silva, autor de um romance biográfico sobre Getúlio, escreveu um artigo no jornal porto-alegrense "Correio do Povo" dizendo que ambas as histórias já estavam esclarecidas em outras obras e que Lira "tem tudo para ser picareta histórico". À Folha, completou: "Lira anunciou ter descobertos coisas que todo historiador conhece. Não sei se ele fez um bom livro, porque não o li, mas começou mal, soa como operação de marketing".
O biógrafo admite que há menções aos dois casos em outros livros, mas sustenta ter sido o primeiro a pesquisar nos arquivos os inquéritos sobre os dois crimes. "Não sou o primeiro a dizer isso, mas o primeiro a fazê-lo com base em provas documentais. Desafio qualquer pessoa a mostrar onde estão as citações ao inquérito original. Os documentos estavam intactos nos arquivos, fui o primeiro a manuseá-los." "Não tenho a mínima intenção de polemizar com Juremir, não o valorizarei a esse ponto. O polemismo é a doença infantil do jornalismo", completou Lira.
Para o historiador Boris Fausto, autor de livros elogiados sobre Getúlio e a Revolução de 30 e que escreveu a contracapa da biografia de Lira, embora o lançamento não revele "nenhuma grande novidade", "traz uma quantidade imensa de informações e é escrito no bom estilo do jornalismo, numa narrativa muito detalhista".
VACINA
 
Lira Neto nasceu em 1963, nove anos após a morte de Getúlio. De sua infância cearense, lembra do político como alguém "endeusado, um mito, o pai dos pobres". Questionado sobre qual a vacina para não se contaminar pelo Fla-Flu político-ideológico que cerca o personagem, o biógrafo respondeu: "Ser jornalista, buscar acima de tudo ser isento e contemplar o maior número de ângulos, não fechar os olhos para nenhuma interpretação. Sou um repórter". Ainda que Lira não tenha atendido integralmente ao pedido da mãe -sua biografia expõe também defeitos e contradições do biografado-, sem dúvida a figura de Vargas que predomina neste primeiro volume é mais positiva que negativa. "É que ele ainda não se tornou ditador", relativiza o biógrafo. A mãe dele não perde por esperar.


Leia entrevista com o biógrafo Lira Neto
Crítica biografia

Repleto de detalhes novelescos, livro dá pouca ênfase às rupturas


O autor, talvez preocupado com uma leitura cinematográfica, investe nesses recortes, arriscando menos na análise
A narrativa colorida, cheia de diálogos, cartas, discursos e reportagens, é um dos pontos mais atraentes do primeiro volume da trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, maior personagem brasileiro do século 20.Lira mostra a trajetória de um político ambíguo. Navega por sanguinolentas guerras civis no Sul e descreve a teia do poder oligárquico. Conta como Getúlio na juventude gastava sua mesada em charutos e livros de Comte, Zola, Darwin, Nietzsche e Saint-Simon.Lembra como ele, já no poder, flanava por Porto Alegre e Rio, frequentando livrarias e cafés. Horas antes do estouro da Revolução de 30, não deixou de jogar a sua prosaica partida de pingue-pongue com a mulher, Darcy.Trata em detalhes da articulação política para a revolução (a face militar é mais rarefeita) e da inédita campanha popular que acabou por levar Getúlio de trem até o Catete. A leitura prende pelo dinamismo e pelo tom quase novelesco em alguns trechos.
Títulos de capítulos simulam manchetes exageradas. Um: "No tiroteio, um jovem tomba morto. Seria Getúlio, aos quinze anos, o assassino?". Outro: "Índia é estuprada e cacique, morto a tiro. O culpado é Getúlio Dornelles Vargas". No primeiro caso, nenhuma evidência leva a crer que Getúlio seria o responsável pela morte de um estudante num entrevero em Ouro Preto (MG). No segundo, o criminoso era um homônimo, sem ligação com o político. Mais tarde, lembra Lira, Carlos Lacerda derraparia nesse erro no afã de atacar Vargas.
Talvez preocupado em retratar aspectos que possam ter uma leitura cinematográfica, o autor investe nesses recortes, arriscando menos na análise. Vasculha escritos, buscando traços autoritários. O rastro desenvolvimentista é pouco explorado.
Apesar de citar trechos de um dos primeiros discursos de Getúlio, em 1906, ainda como líder estudantil, Lira deixa de observar a defesa que Getúlio ali fez da indústria, já com coloração nacionalista. O ponto é destacado pelo economista Pedro Fonseca em "Vargas: O Capitalismo em Construção", lançado pela editora Brasiliense em 1989. Com ideias cevadas no positivismo, Getúlio vai se metamorfoseando. No governo do Rio Grande do Sul, se desprega dos preceitos tradicionais de austeridade, toma empréstimos no exterior, investe em infraestrutura, libera créditos e cria o banco estadual.
Tudo isso contrariava os princípios positivistas, pelos quais o Estado não deveria gastar o que não tivesse, comparando a gestão pública à economia doméstica, um discurso ainda presente hoje. Lira poderia dar mais ênfase à análise dos momentos que apontavam para rupturas. Naqueles tempos, o Rio Grande do Sul era a única região que produzia essencialmente para o mercado interno. A geração de Getúlio soube curar feridas intestinas e partir para costurar um projeto nacional. Afinal, lá estava o seu mercado, e compartilhar o centro do poder passava a ser essencial. Lira não envereda muito por esse caminho, preferindo concentrar o texto nas saborosas tramas da queda da República Velha. É bom de ler.

Mas o leitor acaba o livro se perguntando como aquela figura, amadurecida nas entranhas das oligarquias e pintada como um político matreiro, dissimulado, pôde dar o salto que deu.

GETÚLIO
AUTOR Lira Neto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 52,50 (664 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Leia crítica da historiadora Marly Motta
folha.com/no1091098
Em 1907, Vargas relativiza escravidão e ataca cristianismo

DE SÃO PAULO
Em 25 de dezembro de 1907, aos 25 anos, Getúlio Vargas foi o orador da sua turma na formatura na Faculdade de Direito de Porto Alegre. No discurso, de 41 páginas, exalta as virtudes da civilização grega, e, num tom cientificista e rebuscado, passeia por biologia, psicologia, filosofia, arte e direito. Defende que a escravidão foi importante ao progresso do homem e ataca o cristianismo, em trecho citado por Lira Neto. Preocupada que a peça fosse usada por detratores do pai, a filha Alzira doou o discurso à Fundação Getúlio Vargas com recomendação de que não fosse divulgado, o que não impediu o biógrafo de consultá-lo. Leia a seguir trechos do discurso, com ortografia original de 1907. (FV E MRA)

"E foi mais tarde sobre a soberba ruinaria da civilização greco-romana que desabrochou a flor mórbida do pessimismo christão. [...]
O amar aos outros surgiu como uma formula egoista, "interessada no desinteresse alheio", e a esmola é uma esperança de salvação creditada no activo da bemaventurança. A concepção monistica da philosophia grega foi substituida por esse dualismo absurdo, sobre-carga da maioria dos erros e prejuizos da intelligencia humana. [...]
Christo, preocupado com a salvação celestial menosprezou a familia, como a todos os bens da vida. [...]
Esta religião desnaturou a grandeza da sexualidade, a força propagadora da especie a união dos seres numa transfusão de magnetismo amoroso, considerado como um commercio impuro. A mulher amesquinhada, ser inferior, serpente tentadora do mal. [...]
A lucta não é a desordem, é a obediência dos inferiores aos superiores, é a subordinação aos mais capazes. [...]
Quando o homem não mais eliminou os vencidos, mas escravisou-os, deu um grande passo. [...] Não eliminaram o prisioneiro de guerra -absorveram-no, isto é, filtraram-no atravez o agrupamento social. Reduzido ao captiveiro foi um animal de carga mais intelligente, encarregou-se dos misteres inferiores da vida, arou a terra que proliferou em larga messe de beneficios. O captiveiro hoje prejudicial a economia dos povos e incompativel com a civilisação foi n'aquelle tempo um progresso.
Leia a íntegra do discurso de Vargas
Fabio Victor e Marco Rodrigo Almeida, Folha de São Paulo, 17/05/2012.

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