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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Uma grande dama, de ferro

A voz saiu serena — mesmo depois de 16 anos confinada em prisão domiciliar

Na sessão de posse do novo parlamento de Mianmar (Birmânia), realizada quarta-feira passada, uma silhueta miúda envolta em seda carmim ofuscou a compacta massa verde de militares salpicados de insígnias no peito e ombros. Era Daw  Aung San Suu Kyi, cujo nome ficara proibido de ser sequer pronunciado no país durante quase duas décadas e agora prestava juramento como deputada recém-eleita. Como de hábito, um arranjo de flores lhe prendia o coque. Também como sempre, a voz saiu serena — mesmo depois de ter passado dezesseis anos confinada em prisão domiciliar por ordem da ditadura militar instalada no país em 1962. “Não se regozijem em demasia. Sejamos vencedores airosos”, pediu à sua legião de eleitores devotos. Por trás da aparência frágil estava uma grande dama de ferro. Nada diminuta em relação à titular do epíteto, Margaret Thatcher. Apenas diferente em tudo — visão da história, concepção de poder, estilo de liderança, recursos morais e intelectuais, desígnios.
Ao contrário da baronesa Thatcher, que encerrou a carreira pública aos 65 anos de idade, após uma década de apogeu no poder, Suu Kyi faz somente agora, aos 66 anos de idade, sua iniciação plena na vida pública. Mas sua biografia até aqui, que se confunde com a história recente da nação, já é notável. The Lady, como a chamavam seus seguidores proibidos de citá-la nominalmente, começa agora uma terceira vida. Nasceu em berço histórico, como filha de Aung San, o cultuado herói nacional da Birmânia que liderou a luta pela independência da tutela colonial britânica.

O pai severo e de formação refinada foi assassinado por inimigos políticos quando Suu Kyi tinha dois anos, mesclando sua infância de privilégios com um forte rigor moral e disciplina. Aos 11 anos de idade, a menina passa por uma segunda tragédia familiar: o irmão caçula morre afogado. Pouco depois a mãe é nomeada embaixadora em Nova Délhi e Suu Kyi vive uma adolescência despreocupada na Índia até o golpe militar. A partir daí nada mais é o que foi. A jovem de 19 anos é despachada para estudar no prestigioso St. Hugh’s College, em Oxford, Inglaterra, onde encontra seu futuro marido e pai de dois filhos, o historiador britânico Michael Aris. Data dessa época, segundo seu biógrafo Thierry Falise, um bilhete escrito por ela ao marido: “Só te peço uma coisa”, diz o pedido, “se algum dia o meu povo precisar de mim, você deve me ajudar a cumprir meu dever”.

À época, o registro escrito deve ter soado esquisito, visto que os laços de Suu Kyi com sua terra natal não eram estreitos. Visitava a mãe esporadicamente, marcava presença anual em Yangon (antiga Rangum) para a cerimônia em homenagem ao pai, considerado mártir da pátria, mas os militares jamais imaginaram que algum dia a filha levantaria a mesma bandeira. Até que numa noite de março de 1988 ela recebeu telefonema em Oxford informando-a de que a mãe estava à beira da morte. Dois dias depois, Suu Kyi, então com 43 anos de idade, desembarcava num país conflagrado. Dele só sairá novamente, pela primeira vez, dentro de algumas semanas, para rever os filhos, a Inglaterra e receber o Nobel da Paz que lhe fora concedido 11 anos atrás. Ao longo dessa eternidade de tempo confinada nunca mais pôde rever o marido, que morreu de câncer na Europa, em 1999. Durante mais de 10 anos, foi-lhe vetado um encontro com os filhos.

Naquele ano de 1988 os estudantes birmaneses haviam decidido sair às ruas contra a ditadura e a resposta das forças armadas fora sangrenta: mais de três mil manifestantes mortos em um só dia de protestos. Suu Kyi iniciava ali uma segunda vida. Empunhou seu primeiro microfone para meio milhão de pessoas em agosto, recusou a oferta da junta para que saísse do país, e seis meses depois iniciava a pena de reclusão domiciliar, intercalada por alguns meses de liberdade. Apesar do desconforto dos militares com a sua existência, optaram por não recorrer à sua eliminação física. Em parte para não criar uma mártir das dimensões do pai; em parte por levar em conta a notoriedade e relações internacionais da ativista. O Nobel que lhe foi concedido deve ter reforçado esse cálculo.

Ao longo de seu tempo de clausura política, a ocupante da casa de número 54 da University Avenue pregou uma agenda de reconciliação nacional e defesa do estado de direito. Ali, The Lady perdeu a saúde e boa parte dos cabelos. Ali recebeu a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Ali, sobretudo, construiu sua vitoriosa estratégia de sobrevivência política e pessoal. E dali emergiu inteira, com a indefectível flor no cabelo, numa manhã de novembro de 2010. O regime militar roera a corda primeiro. Não sem antes trocar o nome de Rangum por Yangon, rebatizar a Birmânia como República da União de Mianmar e transferir a capital para Naypidau.

O resto ainda é uma obra inacabada. Poucos meses após a libertação de Suu Kyi, os militares aposentaram o general Than Shwe, tido como taciturno e paranoico, e estrearam um governo civil encabeçado por um general reformado. Nem todos os presos políticos já foram libertados e os militares ainda mantêm direito automático a ocupar 25% das 500 cadeiras no parlamento. Mas uma abertura lenta e gradual começa a se delinear — tanto assim que Daw Aung San Suu Kyi e outros 41 candidatos da Liga Nacional pela Democracia puderam ser eleitos no mês passado. “Parece um filme de ficção científica”, disse um deles, ao se ver sentado no plenário junto ao general que o encarcerara. O teste maior da dama de seda asiática talvez comece só agora.

Dorrit Harazim, O Globo, 06/05/2012

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