| A burrice e a facilidade estão no poder não pela mão da nova classe média, mas contra ela |
Há uma operação em andamento na sociedade brasileira que começa na
economia, ganha tradução no comportamento, faz um estágio na política e
desafoga na cultura. É a chamada ascensão da nova classe média, que vem
causando muita confusão conceitual e gerando preconceito a rodo. O novo patamar
de renda de parte da população, que permitiu que muitas pessoas chegassem ao
mundo do consumo, foi traduzido como uma nova realidade social. Na
verdade, não há identificação entre classe e renda, pelo menos na perspectiva
da sociologia. Classe social não se define por faixa de renda nem pela
quantidade de eletrodomésticos inúteis e quebradiços. Essa classificação
representa na verdade a relação das pessoas com o consumo e não sua posição no
processo de produção econômica ou no jogo das relações de força da política.
No entanto, há uma euforia em considerar um avanço esse pequeno incremento de renda, o que vem se tornando um álibi para muita má política e preconceito. Em primeiro lugar, criou-se um colchão ideológico que desestimula as reivindicações. Como tudo parece ir bem, a questão é esperar. Esse refresco canalha tem servido cada vez mais para a demonização dos movimentos sociais e da nova onda sindical independente.
Outra consequência igualmente daninha tem sido a despolitização da sociedade em nome de valores pretensamente neutros, como a competência, ou de dispositivos universais de longo prazo, como a educação. Sem uma crítica da alienação e uma real transformação da escola, as promessas de reforma pela via administrativa ou pela meritocracia escolar se afiguram tão vazias como inúteis. Os competentes são os que mandam, as boas escolas são as dos ricos.
Por fim, ainda no campo das falsas expectativas geradas pela distribuição incipiente de renda, está a ideia de que o consumo é civilizador. Por essa visão, as pessoas, à medida que adentram no mundo das mercadorias, em vez de se alienarem (como era de se esperar) se tornariam mais conscientes de seu valor pessoal e como grupo. A substituição da cidadania pelas relações de consumo é uma espécie de vanguarda do atraso.
Arte e gosto No entanto, a nova classe média parece ter se tornado uma espécie de guia dos nossos tempos em termos culturais. Os enganos, então, se tornam ainda maiores e mais perniciosos. Em primeiro lugar, criou-se uma falsa identificação entre a classe C e as produções mais popularescas e pueris, como se qualidade tivesse íntima relação com dinheiro. Assim, para “atender” o novo consumidor, o mercado foi empaturrado de produções de nível indigente em termos de acabamento e sofisticação.
Tudo, a música, a literatura, a televisão e o cinema, entre outras artes, passaram a ser guiados por um novo consumidor, que, pela primeira vez, teria dinheiro para gastar com produtos culturais. Assim, o Brasil parece ter descoberto que empregada doméstica era gente (porque passou a consumir, quem não consome não é gente), que música sertaneja é arte, que a guitarrada tem o que dizer, que novela de televisão é dramaturgia, entre outras “novidades”.
O curioso é que essa mesma arte que passa a ser valorizada como mercado ganha por parte dos chamados “formadores de opinião” um conceito que varia do deboche ao desprezo. Como se esses produtos (que de resto sempre foram consumidos no país, por todas as classes sociais) fossem novidades e não desdobramentos de operações semelhantes no âmbito do cinema industrial (padrão Globo Filmes), da música pop (das bandas de rock ao sertanejo universitário), da literatura de consumo (Paulo Coelho, padre Marcelo e seu rebanho de seguidores).
O preconceito, neste sentido, se traduz não em torno dos produtos culturais em si (já que, de acordo com padrões de gosto canônicos, são todos igualmente ruins), mas do comportamento das pessoas, que passam a assumir suas escolhas. Há, por exemplo, um processo universal que faz de Michel Teló o ídolo que todos adoram odiar. Todos podem ter seu lado “brega”, menos os bregas. Como certa vez cutucou Jean-Paul Sartre, os burgueses permitem que se tire deles tudo, menos aquilo que os define como burgueses. A cultura é uma propriedade da burguesia, até mesmo a baixa cultura.
O que é popular A cultura popular sempre foi uma espécie de manancial de criatividade. No campo da música, os grandes compositores sempre se alimentaram da arte que brotava das camadas populares. Além disso, nesse nível originário, a ideia de cultura tem uma proximidade muito grande da matriz antropológica. Em outras palavras, a cultura popular é uma construção e é a expressão de uma realidade. É assim que a música de Villa-Lobos e a literatura de Guimarães Rosa são populares. Como o rap é arte, muitas vezes de alto nível sob qualquer instrumento de avaliação.
Essa origem das manifestações da inteligência e sensibilidade populares vai sendo transformada por relações de toda natureza: a festa, a religião, as movimentações coletivas. Tudo isso faz com que uma arte que brota de sua matriz personalíssima se transforme em uma expressão social. Um sentimento que une, uma inteligência que ilumina. A arte popular, nesse sentido, é sempre numinosa.
O que a tradução desse processo ganha com a entrada em cena da sociedade de consumo é a perspectiva de se aproximar dessas experiências em momentos comuns. Podemos sentir o destino trágico, as dores de amor, as alegrias do compartilhamento, tendo a arte como mediação com o mundo. O grande mistério nisso tudo é que o mais humano é sempre o mais intenso. Na arte e na vida, a pele é o que temos de mais profundo.
O setor cultural vive uma crise. Percebeu que a arte popular é mais expressiva que a arte que foi feita em nome do povo. Dinheiro nunca significou bom gosto, mas hoje tem anistiado quem não tem gosto qualificado a se jactar de ser brega, jeca e vazio. A incultura entrou em moda pela porta do mercado. A burrice e a facilidade estão no poder não pela mão da nova classe média, mas contra ela. Só o popular pode nos salvar. Desde que o samba é samba é assim.
Joaõ Paulo, Estado de Minas, 02/06/2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário