Fica mais burro o Brasil com a
morte repentina de Flávio Pierucci, sociólogo da USP, na sexta passada nesta
capital. Citações a seu respeito tratam-no de "especialista em
religiões". É pouco. Nascido em Altinópolis (cidadezinha do norte
paulista), Pierucci tornou-se um intérprete das idas e vindas do racionalismo
ocidental na periferia do capitalismo. Seja na religião, seja nas preferências
do eleitor, seja nos descaminhos da esquerda. Nos últimos 20 anos, enveredou
pela vasta obra de Max Weber (1864-1920). O mergulho nos legou a melhor edição
brasileira de "A Ética Protestante e o 'Espírito' do Capitalismo"
(Companhia das Letras), texto crucial do sociólogo alemão. Outro excelente
produto desses anos de imersão é "O Desencantamento do Mundo" (ed.
34).
Com minúcia, Pierucci mostra como
Weber enxergava na evolução milenar das religiões ocidentais -em contraste com
grandes denominações do Oriente- o enraizamento da racionalidade na vida
cotidiana. Desde os profetas do judaísmo, a divindade veio sendo expulsa do
mundo sensível. Os deuses não estão mais entre nós. Tornaram-se, nas
configurações mais radicais do protestantismo cristão, uma ideia abstrata,
insondável, intangível.
No lugar dos rituais mágicos e místicos para lidar com o divino, instalou-se um metódico regramento da conduta cotidiana -baseado no cálculo, na repressão dos prazeres e na valorização do trabalho e da riqueza. Daí porque, no Ocidente, a religião favoreceu e potencializou o racionalismo e o próprio capitalismo.
No lugar dos rituais mágicos e místicos para lidar com o divino, instalou-se um metódico regramento da conduta cotidiana -baseado no cálculo, na repressão dos prazeres e na valorização do trabalho e da riqueza. Daí porque, no Ocidente, a religião favoreceu e potencializou o racionalismo e o próprio capitalismo.
Filiado, como Weber, à vertente iluminista, Pierucci fez-se crítico das novas plataformas da esquerda, que valorizam identidades de etnia, gênero e "raça". O pressuposto de que há diferenças culturais irredutíveis entre grupos conflita, na prática, com a ideia de que o ser humano possui um acervo de direitos universais -estes, sim, inegociáveis.
Vinicius Mota, Folha de São
Paulo, 11/06/2012
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