Enquanto acontecia, entre 1966 e 1974, a Guerrilha do Araguaia esteve envolta pelo manto do silêncio imposto pela censura da ditadura militar. Mais tarde, com a redemocratização, a história começaria a ser contada em reportagens e livros. Em meados da década passada, "Operação Araguaia", de Taís Morais e Eumano Silva, deu um passo importante para o conhecimento do que ocorreu nas matas do Pará, com a revelação de documentos do Exército. Agora, com "Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia", de Leonencio Nossa, mais detalhes vêm à tona. A Guerrilha do Araguaia foi uma iniciativa do Partido Comunista do Brasil, que visava, a partir de uma revolução no campo, derrubar o regime militar e implantar um socialismo de orientação maoísta. Infiltrados nas comunidades locais, cerca de cem militantes pegaram em armas e enfrentaram três expedições de tropas do Exército. Os guerrilheiros, em sua maioria, foram mortos.
A recompensa pelo esforço foi o acesso ao arquivo pessoal de Curió: 32 pastas, cinco mapas, seis álbuns de fotografias e muitos papéis soltos, tudo guardado numa mala de couro vermelho. O livro é ancorado nesse material, "o único que se conhece sobre fuzilamento de presos políticos na ditadura militar".
Não é novidade que militares mataram guerrilheiros depois de presos. Os primeiros relatos já davam conta da prática, e Leonencio Nossa já antecipara informações, em 2009, numa série de reportagens no jornal "O Estado de S. Paulo", onde trabalha.
A novidade, agora documentada, é que teria havido pelo menos 41 execuções, e não 25, como se imaginava. O livro traz a lista dos nomes das vítimas, com data e local das mortes. São informações relevantes, sobretudo porque emergem logo após a instalação da Comissão da Verdade.
O autor corrige também versões dos guerrilheiros, ao sustentar, por exemplo, que eles minimizaram a adesão de moradores para reforçar o heroísmo dos comunistas.
Com estrutura fragmentária, o livro intercala breves histórias. Embora seja uma opção defensável devido à grande quantidade de personagens, tal narrativa prejudica a visão do conjunto.
Outro problema decorre da ambição de abarcar a história da região e de investir na biografia de Curió, além de seu papel no combate à guerrilha. A maior abrangência não compensa a perda de foco. Ainda assim, trata-se de contribuição consistente à historiografia do período.
OSCAR PILAGALLO, jornalista, é autor de "História da Imprensa Paulista" (selo editorial Três Estrelas).
LANÇAMENTO
MATA! O MAJOR CURIÓ E AS GUERRILHAS NO ARAGUAIA
Leonencio Nossa
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 45 (512 págs.)
AVALIAÇÃO Bom
Folha de S.Paulo
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