A que o senhor atribui o crescimento do número de evangélicos no Brasil?
O Evangelho não é algo litúrgico, para ser dissecado em um culto de duas
horas. A grandeza do Evangelho está no fato de ser algo, que pode ser
praticado. A Bíblia é o melhor manual de comportamento humano do mundo. As
igrejas evangélicas têm pregado uma mensagem de grande utilidade para a vida
das pessoas também depois do culto. Esse é o grande segredo. De que adianta
eu fazer o meu fiel ficar duas horas dentro de um templo se, quando aquilo
acaba, nada muda nas relações dele com a família, com o trabalho e na vida
social? Nós pregamos uma mensagem que condiciona a prática da pessoa no seu
dia a dia. Jesus disse: "Eu vim para que tenham vida, e vida em
abundância". Ele fala da vida terrena nessa passagem. Entre os
católicos, quem mais se aproximou de nós, evangélicos, nessa maneira de
encarar a pregação foi o movimento carismático. Os padres carismáticos
católicos adotaram uma maneira de pregar que os pastores já utilizam há mais
de quarenta anos. Os pastores são muito eficientes não apenas em atrair mas
também em manter seu rebanho, não? Sim. Quando uma pessoa se diz católica e
alguém pergunta qual foi a última vez que ela foi à igreja, uma resposta
comum é que isso ocorreu há vinte anos, quando fez a primeira comunhão. Entre
os evangélicos, o fiel mais desligado vai responder que comparece aos cultos
pelo menos duas vezes por semana, que dá o dízimo e faz a oferta.
Essa ênfase dos pastores em arrecadar dinheiro dos fiéis não é muito
suspeita?
Existe um preconceito miserável em relação aos evangélicos, que costumam ser
descritos como bandos de idiotas, tapados, semianalfabetos, manipulados por
espertalhões dedicados a arrancar tudo o que querem deles. Engana-se quem os
enxerga assim. Manipulação e exploração existem em todo lugar. Tem muito
bandido por aí. Mas esses malandros não conseguem segurar o povo. A distância
que me separa de um Edir Macedo, por exemplo, vai do Brasil à China, mas é um
erro achar que todo mundo que dá dinheiro à igreja dele, a Universal, é
imbecil ou idiota. Claro que não é. A pessoa doa porque se sente abençoada,
porque se libertou da bebida, vício que consumia todas as economias dela e
que a deixava sem condições até de pagar a conta de luz. Ninguém é obrigado a
ofertar. Mas, se quer ser membro, se quer pertencer ao grupo, tem de ajudar.
Estou construindo uma igreja linda, com ar-condicionado central, ao custo de
4 milhões de reais. Ela será paga com ofertas dos fiéis, pois, obviamente,
não vai descer um anjo do céu e dizer "Malafaia, está aqui um cheque de
Jeová, preencha e deposite". Quem critica os pastores deveria mesmo é
agradecer às igrejas evangélicas. Desafio qualquer um a me apresentar uma
entidade que recupere mais pessoas do que as igrejas evangélicas. Fazemos
isso a um custo zero para o governo. Ainda assim, sempre aparece um
desinformado querendo taxar a igreja, cobrar imposto. Logo de nós, que não
cobramos um centavo sequer do governo para livrar as pessoas das drogas, da
prostituição ou da bebida, e ainda temos impacto positivo na vida
profissional dos fiéis. Muitos empregadores fazem questão de só contratar
evangélicos. A gente ensina ao fiel que, quando ele está trabalhando, deve
servir ao patrão como se estivesse servindo ao próprio Deus. É o que a Bíblia
ensina.
Não é exagero?
Não. Deus trabalha em harmonia com a ordem. Deus ama a autoridade. Aquilo que
uma pessoa respeita é aquilo que ela vai atrair para a sua vida. Se alguém
não respeita autoridade, não vai atrair essa noção para a vida dela. O
evangélico não fuma e, portanto, adoece menos. Ele não bebe. Então,
dificilmente vai ser daquele tipo de gente que não consegue acordar cedo, que
sai para almoçar, enche a cara e faz o trabalho todo errado na parte da
tarde. Evangélico não cheira cocaína. Ele aprende na igreja a ter princípios
rígidos. Mas é bom que fique claro que a Bíblia também impõe deveres aos
patrões. O livro sagrado adverte os patrões de que existe uma força superior
a eles, um poder que não permite que façam qualquer coisa.
Tem muita gente pragmática que já chega à igreja acreditando que vai
aprender como subir na vida?
Tem, mas, se o objetivo fosse apenas subir na vida, não teria rico na igreja.
Na minha tem gente pobre, mas também tem desembargadores, membros do Ministério
Público, doutores, empresários. Mas dinheiro não é tudo. Se fosse, rico não
daria tiro na cabeça, não tomaria remédio de tarja preta. Mesmo que muita
gente pense que não deu certo na vida porque Deus não quis, a lógica de
buscar amparo em uma igreja não é essa. A pessoa que transfere suas
incompetências para Deus está equivocada. Quando um fiel me procura e pede
"pastor, ore por mim porque o diabo está roubando as minhas
finanças", eu mando parar com conversa fiada. Se uma pessoa sempre gasta
mais do que ganha, a culpa é dela mesma. Não pensem que Deus vai ficar
cuidando das pessoas como se elas fossem bebês. Desço a mamona nesse tipo de
conversa. Eu mesmo quebrei seis vezes por culpa da minha incompetência, da
minha falta de experiência. O Evangelho me prepara para viver a vida de
maneira triunfante, mas não utópica. Quem ganha 1 000 reais não pode querer
gastar 1 100. Não adianta depois esperar que Deus tire o nome do sujeito do
cadastro de maus pagadores.
O senhor vê uma relação entre a ascensão da nova classe média e o
crescimento das igrejas evangélicas?
A classe emergente quer crescer, conquistar, quer ter o que nunca teve. Está
emergindo para a conquista de coisas. A igreja é poderosa nesse negócio,
tanto é que o secretário-geral da Presidência falou uma bobagem e depois veio
pedir desculpa. (Em fevereiro, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da
Presidência, Gilberto Carvalho, falando da dificuldade do governo de se
comunicar com a nova classe média, disse que o estado tem de fazer uma
disputa ideológica por essa fatia da população, que estaria sob hegemonia de
alas conservadoras, como os pastores evangélicos.) Estamos aqui para pregar o
Evangelho a todo mundo, para as pessoas crescerem e serem alguém na vida. Mas
hoje o que se diz é que tudo o que é religioso tem de ser jogado de lado.
Quer dizer que o filósofo, o metalúrgico ou o sociólogo podem influenciar
politicamente, mas os pastores não? Não aceito esse raciocínio.
A sua atuação contra o projeto que criminaliza a homofobia em debate no
Congresso foi contundente. Mas influir em leis é papel de um religioso?
Se não fosse assim, a casa tinha caído. Essa lei é a lei do privilégio. O
Brasil não é homofóbico. Eu separo muito bem os homossexuais dos ativistas
gays. Esses últimos querem que o Brasil seja homofóbico para mamar verba de
governo, de estatais, é o joguinho deles. Homofobia é uma doença. Ódio aos
homossexuais, querer matá-los ou agredi-los é uma doença. Agora, opinião não
é homofobia. O projeto diz que, se um homossexual se sentir constrangido pela
internet, por um veículo de comunicação, cadeia no cara que constrangeu.
Exatamente o que prevê a lei do racismo. Agora, olhe a diferença. Você já
nasce com sua raça. Não escolhe. O homossexualismo é comportamental. Não vejo
lógica em uma lei para criminalizar quem agride homossexual se um soco dado
em um hétero dói da mesma maneira. A lei que estão propondo é uma lei da
mordaça. Se não aprendermos a respeitar a liberdade de expressão, será melhor
mandar fechar a conta para balanço.
O senhor pratica exorcismo?
A igreja tem isso. Se um fiel cair com espírito maligno, nós vamos cuidar
dele. Mas não fazemos disso um pilar. A nossa igreja é marcada pela pregação
da Bíblia.
Essa é a principal diferença entre sua igreja e as outras evangélicas
pentecostais?
Elas são muito centradas na prosperidade financeira. A Bíblia diz que
prosperidade é obedecer às leis de Deus. Ser próspero não envolve só a parte
material. Indica relacionamento com Deus, alegria de viver, paz, uma vida
abundante. Quem não acredita em prosperidade é um idiota. Se riqueza fosse um
mal, o senhor do mal faria todo mundo ficar rico. Mas não é só o aspecto
financeiro. A igreja tem de pregar, preparar o fiel, ensinar a conhecer a
palavra, a vida com Deus. Se for para prometer milagre, posso fazer seis
cultos por dia. A minha igreja e a maioria das evangélicas não aceitam esse
tipo de coisa.
Qual a sua posição sobre o projeto que propõe a descriminalização do uso
de drogas e que deve chegar ao Congresso ainda neste mês?
Espero que o Senado e a Câmara joguem no lixo essa porcaria. Perderam o
juízo. Não existe lógica em liberar o consumo de drogas e penalizar o
traficante. Então eu estou desconfiado de que vai vir um marciano vender
drogas aqui, um intergaláctico. Olhe a hipocrisia!
O senhor assumiu o comando da igreja em 2010, mudou o nome para Assembleia
de Deus — Vitória em Cristo e deu início a um bem-sucedido projeto de
expansão. Até onde pretende chegar?
Essa aqui era uma igreja de bairro, meu sogro era presidente. Quando meu
sogro morreu, fui eleito por unanimidade para o lugar dele. Agora, temos
igrejas no Paraná, em Santa Catarina, no Espírito Santo, em Pernambuco e no
Rio Grande do Norte, além do Rio. São 120 templos, e eu quero chegar a 5 000
em dez anos.
Qual foi a sua arrecadação no ano passado?
A igreja arrecadou 20 milhões de reais. De 50% a 60% do dízimo foi ofertado
por meio de cartão de crédito. Não vejo nenhum problema nisso. Comprar bebida
com cartão pode. Ir para o motel trair a mulher e pagar com cartão pode. Dar
dinheiro à igreja usando cartão não pode?
Os pastores ganham bem?
Pago
entre 4 000 e 22 000 reais a eles, dependendo da função, do tempo dedicado.
Pastor que vem de outras cidades recebe casa, escola e plano de saúde. A
igreja não quer ter um pastor maltrapilho. Uma pessoa não pode ser incumbida
de cuidar de vidas se a cabeça dela estiver focada em arranjar dinheiro para
pagar as contas.
O senhor ficou rico?
Tenho uma boa casa no Recreio dos Bandeirantes, em um condomínio. Hoje deve
valer uns 2,5 milhões de reais, acho que paguei 600 000. Tenho alguns
apartamentos e uma casa em Boca Raton, na Flórida, que comprei para pagar em
trinta anos. Meu filho estudou nos Estados Unidos. No ano passado, ganhei de
presente de aniversário de um parceiro um carro Mercedes-Benz blindado. Em
2010 comprei um jato Gulfstream fabricado em 1986 e paguei por ele 3 milhões
de dólares. O jato não é da igreja, e também não é meu. Quem comprou mesmo
foi a associação que administra nossas obras sociais e custeia nosso tempo na
televisão.
O senhor pensa em entrar para a política?
Nunca serei candidato a nada, nem a assistente de carimbador de vereador. Mas
quero influenciar as pessoas. Votei duas vezes no Fernando Henrique Cardoso,
duas vezes no Lula, depois votei no José Serra. Não satanizo partido político
nem candidaturas.
O senhor fez implante de cabelo?
Custou 20 000 reais. Ficou muito bom. Fiz com o mesmo médico do Zé Dirceu
(ex-ministro José Dirceu) e do Agripino (senador José Agripino Maia — DEM).
Silas
Malafaia, entrevista a Revista Veja, 04/06/2012.
R.Veja
04/06/2012
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