A Primavera Árabe fracassou no Egito? É preciso
um certo cuidado ao empregar verbos drásticos como "fracassou", mas
os sinais que emergem daquele país não são dos mais animadores.
É verdade que um tirano foi deposto e um presidente democraticamente eleito
deverá assumir. Mas, por outro lado, os mesmos militares que sustentavam a
ditadura de Mubarak não hesitaram em dissolver um Parlamento legítimo nem em
desidratar os poderes presidenciais antes de entregá-los a Mohamed Mursi. É
crível a hipótese de que os generais tenham negociado para seguir no comando da
ampla rede de empreendimentos ligados às Forças Armadas -e das propinas
correspondentes.
De resto, Mursi é um islamita. Embora não tenha dado nenhum indício de que
pretenda instalar uma teocracia, não parece sábio apostar numa era de
liberdades civis para todos.
Esse sentimento ganha força com a leitura de "Por que Nações Fracassam", de Daron Acemoglu e James Robinson, lançado em março nos EUA. Os autores sustentam -e tentam provar, por meio de convincentes exemplos- que o principal fator a distinguir países que dão certo de seus congêneres malogrados é a existência de instituições que promovem o poder político dos cidadãos e lhes permitem tirar proveito das oportunidades econômicas.
Para Acemoglu e Robinson, o Egito é pobre não por causa de fatalidades geográficas e culturais, mas porque sempre foi dirigido por elites que organizaram o sistema para beneficiar a si próprias. Até onde se vê, esse arranjo ainda não foi rompido. Se as coisas continuarem assim, a Primavera Árabe será mais uma das muitas revoluções para não mudar nada a que os egípcios já assistiram.
Helio Schwartsman, 27/06/2012
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