Alfred Emanuel “Al“ Smith foi
governador do Estado de Nova York, eleito três vezes. Tinha muitas fontes de
apoio, sendo uma delas sua oposição à Proibição. Naquele momento, Nova York era
o estado mais importante dos Estados Unidos, com mais “votos eleitorais”
(posição hoje ocupada pela Califórnia). Ser governador daquele estado era uma
ajuda poderosa às ambições presidenciais: quatro governadores de Nova York se
tornaram presidentes dos Estados Unidos: Martin Van Buren, Grover Cleveland,
Theodore Roosevelt e Franklin Delano Roosevelt. Al Smith foi candidato à
presidência. Tentou, pela primeira vez, em 1924. A Ku-Klux-Klan, então poderosíssima,
fez uma campanha radical e violenta e Smith não conseguiu ser candidato.
Conseguiu em 1928. Não obstante, era católico e a afirmação de que o Papa e a
Igreja Católica mandariam nos Estados Unidos encontrou milhões de ouvidos
desconfiados. Smith perdeu de longe: 444 votos eleitorais contra 87; perdeu em
todos os estados, menos seis do Sul, tradicionalmente democratas, e dois de New
England.
Perdeu até em Nova York. Sua
postura contra a proibição rendeu muitos votos, mas alienou os conservadores; o
país, presidido por um republicano, vivia um período de prosperidade e... Al
Smith era católico. Naquele então, as clivagens entre as religiões eram muito
importantes e, durante mais de trinta anos, bons candidatos em potencial foram
preteridos por serem católicos. A mudança só se efetuou em 1960, quando, pela
primeira vez, um católico, John Kennedy, ganhou as eleições. A divisão estava
presente, mas em forma amainada. De lá para cá, as clivagens entre católicos e
protestantes perderam boa parte da significação.
O conflito religioso na política americana é antigo. Os etno-historiadores deixaram claro que o século XIX foi marcado por várias linhas de conflito, a religião entre elas. É um contraste com o que acontece hoje, quando existe uma perestroika entre esses rivais tradicionais. Mas o anticatolicismo não morreu. Os evangélicos, em parte, levantaram a bandeira que os protestantes tradicionais abandonaram. É o que afirma o conhecido cientista político David Campbell. Há semelhança com o que ocorre no Brasil. Não obstante, o principal conflito dos evangélicos é com a sociedade laica.
Porém, os conflitos religiosos estão mudando nos Estados Unidos. De Maio e Bolce confirmam o enfraquecimento da antiga divisão entre protestantes e católicos, com uma especificação importante: a clivagem emergente é entre religiosos e seculares, e é profunda. A diferença nas preferências eleitorais entre os que frequentam qualquer igreja cristã e os que não frequentam é de cerca de 30% a 35%, mais importante que a clivagem entre gêneros e a distinção baseada na idade. Somente a clivagem racial entre brancos e negros é eleitoralmente mais importante, sendo maior a distância entre esses dois grupos. A crise econômica, porém, matizou esse conflito.
A disputa baseada nas religiões deu lugar a uma divisão baseada na religiosidade. O racha se centra, cada vez mais, em temas. Não obstante, essas mudanças religiosas não ocorreram num mundo que não mudou: o mundo mudou. Outras variáveis passaram (ou voltaram) a pesar, criando novas interações com dimensões e valores que se politizaram. A direita americana mudou. Putnam e Campbell analisaram a formação de uma nova direita, que está menos ancorada na religião. Uma pesquisa do New York Times/CBS News mostra importantes mudanças no apoio dado ao Tea Party. Em abril de 2010, 18% dos americanos tinham uma opinião desfavorável dessa tendência; em junho de 2011, a percentagem pulou para 40%, ao passo que os que a favorecem permaneceram perto de 20%. Os demais declararam que não tinham muita informação. A percentagem que tem uma opinião favorável ao Tea Party é mais baixa do que a dos ateus e até do que a dos muçulmanos. A direita cristã também perdeu muito prestígio.
Mudou a divisão religiosa nos Estados Unidos; além de mudar, ela perdeu parte da centralidade. Nesses tempos de crise, cresceu a importância política e eleitoral do debate econômico. A crise econômica mundial, da qual a economia americana não escapou, mudou a relevância da fragmentação. A direita americana parece ter cansado da ênfase religiosa e é, cada vez mais, econômica. Impostos, aumento ou decréscimo dos gastos públicos, o desemprego, o Seguro Social e temas semelhantes cresceram no imaginário político. Hoje, o cerne do debate é a política econômica e não a influência do Papa.
GLÁUCIO SOARES é pesquisador do Instituto de Estudos Econômicos e Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Gláucio Soares, O Globo,
28/07/2012
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