E a Espanha também aceitou ser açoitada pelos seus pares europeus, nesse altar de sacrifícios em que se transformou a política de ajustes imposta pela crise. Mariano Rajoy, o presidente do governo, anunciou ontem um pacote de € 65 bilhões até 2015, entre cortes de gastos e aumento de impostos, condição exigida pela União Europeia para resgatar os bancos espanhóis encalacrados. Resolve alguma coisa? Do ponto de vista social, está evidente que os ajustes até agora implementados só causaram dor. O desemprego já atingiu um recorde obsceno e, pior, vai aumentar, segundo os cálculos da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Em 2013, subirá para 25,3%, algo mais que os 24,5% previstos para este ano. Não obstante, o pacote ontem anunciado reduz o valor do seguro-desemprego a partir do sétimo mês, o que acrescenta sadismo ao massacre social em curso desde o governo do socialista José Luis Rodríguez Zapatero.
Tampouco, como se lia ontem em artigo de Jamil Baz, estrategista-chefe de um desses fundos de investimento de risco, para o "Financial Times". Começa com um toque religioso, ao dizer que "às vezes é possível acreditar que o sofrimento vale a pena" e que "a era de austeridade em que supostamente vivemos tem um tipo de qualidade redentora". Pois não tem, não, acrescenta: "Depois de cinco anos [desde o início da crise], estamos pior do que quando começamos". Mas, atenção, ele não está falando do desemprego na Espanha (ou na Grécia ou no resto do mundo desenvolvido). Esse tipo de detalhe sórdido interessa pouco ou nada a agentes de mercado.
Está falando da dívida, cuja redução é o Santo Graal da austeridade: a dívida subiu de uma média ponderada de 381% do Produto Interno Bruto em 2007 para 417% nas 11 economias que mais estão no microscópio do mercado (Alemanha, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Irlanda, Itália, Japão, Portugal e Reino Unido). Não é preciso ser PhD em Harvard ou outra grife acadêmica para desconfiar que alguma coisa está profundamente errada com essas políticas. Um erro de origem, aliás: a crise não foi provocada pelo mau comportamento dos governos que gastaram ou se endividaram demais, mas pelo sistema financeiro, suas aventuras e seus trambiques (vide o caso recentíssimo da fraude com a Libor). Logo, açoitar governos e sociedades, deixando solta a banca, é poupar os pecadores.
Clovis Rossi, Folha de São Paulo,
12/07/2012
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