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quarta-feira, 4 de julho de 2012

O mapa cerebral do amor e do desejo

Dificilmente os animais permanecem juntos ao fim da reprodução, no máximo, por um curto período

Cientistas de universidade canadense identificam áreas cerebrais em que os dois sentimentos se manifestam de forma coincidente e sugerem que o afeto pode derivar da vontade sexual. Onde estão os limites e as diferenças entre o desejo sexual e o amor? As tentativas de definição dos dois conceitos atravessaram séculos sem que alguma estivesse perfeitamente alinhada com a sensação visceral dos que amam e desejam. Agora, é a neurociência que encara o tema. Pesquisadores da Universidade de Concordia, no Canadá, desenvolveram o que pode ser a versão científica mais próxima dos sentimentos que tanto se confundem e se separam na história evolutiva da humanidade. O primeiro mapa cerebral do amor e do desejo sexual mostra que os dois recrutam um impressionante conjunto de áreas mentais ao se manifestar, muitas vezes coincidentes. 

Uma particularmente interessante é o estriado — região subcortical que traduz a motivação para a ação. Essa mesma área é ativada em dependentes químicos por estímulos associados à recompensa da droga. Esse foi o fator que mais chamou a atenção do neuropsicólogo Jim Pfaus, um dos autores do estudo. Ele explica que é possível compreender o vício não como algo anormal, mas como um processo que liga estímulos naturais a sentimentos prazerosos, incluindo aqueles sentidos pelos filhos quando estão com os pais e pelos amantes quando encontram o alvo de sua paixão. “Drogas de abuso usurpam os sistemas neurais e, literalmente, os tomam. Por isso, precisamos, talvez, começar a pensar sobre a ligação que usamos para o amor como um mecanismo subjacente à dependência”, diz Pfaus. 

O pesquisador também se interessou em investigar melhor como ocorrem as sobreposições do desejo e do amor na ativação cerebral. Pfaus buscou responder questões como: que áreas são ativadas quando pessoas são expostas a fotos de pessoas queridas? São áreas muito diferentes das estimuladas pelo desejo? A ativação do amor e do desejo é de intensidade semelhante? Nessa investigação, os resultados destacaram o papel de uma outra área cerebral: a ínsula, região no córtex profundo estimulado pelos dois sentimentos.

As ativações observadas nessa região, que traduz sentimentos e emoções na consciência verbal, indicam aos pesquisadores que o amor no cérebro pode ser derivado do desejo sexual inicial. “É como se o desejo sexual ativasse um ‘núcleo’ que o amor embeleza ou amplia para aumentar ainda mais a ativação dessas regiões”, descreve Pfaus. O amor se manifesta na parte anterior da ínsula, enquanto o desejo se expressa com maior intensidade na parte posterior da mesma região. Esse padrão específico de ativação posterior-anterior sugere que o amor é uma representação mais abstrata das experiências prazerosas sensório-motoras que caracterizam o desejo.

“Dito de outra forma, quando sentimos o ‘amor à primeira vista’, nós realmente só queremos jogar um jogo de tabuleiro com essa pessoa, ou queremos consumar o sentimento pelo sexo? Eu acho que, provavelmente, é o segundo caso. E se o sexo é terrível? E se você descobrir que a pessoa tem crenças contrárias às suas, diz algo estúpido ou de alguma forma faz você se sentir desconfortável? Acho que os sentimentos que eram inicialmente tão fortes enfraqueceriam significativamente”, prossegue o neuropsicólogo. Ou seja, o caminho do desejo sexual ao amor, que precisaria da expectativa de recompensa para acontecer, foi interrompido.

Cultura Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores realizaram uma meta-análise de 20 trabalhos na área de representação e imagem neurológica de manifestações do amor e do desejo sexual. No caso do amor, foram reunidos sete estudos que analisaram a expressão desses sentimentos em voluntários. Alguns compararam as áreas cerebrais em um estado normal àquelas ativadas em mães ao olhar fotos de seus filhos, ou amantes ao perceber subjetivamente o nome de seus amados em um experimento. Os outros 13 estudos, ligados ao desejo sexual, estavam focados principalmente nas regiões neurais expressadas em indivíduos expostos a filmes e fotos eróticos.

O professor Daniel Mograbi, do Núcleo de Neuropsicologia Clínica e Experimental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), acredita que o estudo levanta uma importante e polêmica discussão sobre o amor que, ainda assim, diz muito pouco da experiência de amar. O estado subjetivo de amar não poderia ser reduzido a coordenadas cerebrais. “Ele dá um correlato cerebral do que acontece no órgão quando o indivíduo está amando, o que não explicita o que é amar. Dizer quais são as ativações cerebrais não elimina a experiência em si, que é construída de forma muito individual”, analisa. Mograbi acredita que um dos pontos mais interessantes do estudo seja a forma como os cientistas especulam que o amor surgiria de estruturas evolutivamente mais básicas, como a reprodução e a escolha do parceiro — ligadas ao desejo sexual — para, então, atingir um nível maior de abstração.

“É importante como eles manifestam essa ideia de que o amor surgiria como uma derivação mais abstrata do desejo sexual. A cultura define quais são os valores que fariam com que os centros de recompensa do cérebro se manifestem, regiões eles dizem ligadas ao amor.” A progressão do desejo sexual ao amor, então, estaria envolvida com essa determinação evolutiva. “O amor pode surgir em uma representação mais abstrata de representações do prazer. Menos por substituição e mais por sobreposições, que transformam o que foi construído anteriormente.”

Crítica O especialista Gilberto Nunes, do Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Ciências Cognitivas (IBNeuro), não concorda com a ideia geral de conciliação e junção do desejo sexual e do amor, mas vê uma separação clara entre as duas sensações. “O que ele chama de desejo sexual na metodologia usada nada mais é do que a excitação sexual, que não depende de outro indivíduo e pode ser manifestada sozinha. O conceito de amor dele, por outro lado, é muito amplo e abarca pais, filhos e amantes”, questiona Nunes. Ele afirma que, mesmo que fosse possível dissociar experiências de vida, construções culturais e familiares, o caminho do desejo sexual para o amor ainda não seria natural.

“O ser humano é muito complexo para podermos imaginar o que é tipicamente humano. Se observarmos outras espécies de animais com as quais temos mais contato, também vemos que não existe uma relação óbvia do desejo sexual com o amor ou o intenso desejo de união de longa duração, como conceitua a pesquisa”, aponta Nunes. Para ele, dificilmente os animais permanecem juntos ao fim da reprodução, no máximo, por um curto período, com o objetivo prático de cuidar dos filhotes. 

“Não acredito em nenhuma explicação com base no funcionamento cerebral que possa justificar a falta de amor, o amor exacerbado ou a falta do orgasmo, por exemplo. Muito menos uma possibilidade de tratamento para pessoas com essas dificuldades baseada em um mapa cerebral.” Essa é uma das aplicações teóricas que Pfaus hipoteticamente levanta. No estudo, os pesquisadores afirmam que os resultados encontrados podem ter implicações interessantes na medicina sexual de forma que venham explicar por que alguns pacientes têm problemas nos relacionamentos amorosos sem ter qualquer desordem de desejo sexual e vice-versa.

Bruna Sensêve, Estado de Minas, 03/07/2012

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