Percorrendo linhas paralelas, mas
coincidentes no resultado, a sociedade brasileira achou o caminho para rever a
nossa história política recente à sua maneira. Mesmo sem a autoridade dos
tribunais judiciais para condenar, como aconteceu em diversos países,
particularmente entre vizinhos das Américas Central e do Sul, aqui, a soma
desses trabalhos vai resultar em um bem acabado painel da repressão política
imposta aos brasileiros a partir de 1964 até o seu ponto final, em 1985.
Derrocada que começou alguns anos antes pela resistência oposicionista nas ruas
e também dentro das instituições, como o Congresso Nacional, onde foi aprovada,
em 1979, a Lei da Anistia - base legal para os limites do que estamos assistindo
agora. Para observar o caminho brasileiro, é bom lembrar o Chile, de Augusto
Pinochet, e a Argentina, de Jorge Rafael Videla, dois símbolos de ditaduras
sanguinariamente radicais. Nos dois, as comissões encarregadas da verdade e do
julgamento de militares, levaram aos tribunais vários desses oficiais. Saíram
com pesadas sentenças.
No futuro, quando historiadores juntarem as pontas do emaranhado e o passado chegar por inteiro às escolas, às bibliotecas e livrarias, teremos colocado luz sobre eventos obscuros para a grande parte dos brasileiros. Mas não para famílias e amigos que, muitos em silêncio e com profunda dor, já buscavam comparar todas as verdades - e versões. Não se trata, como observou a presidente Dilma Rousseff, de revanchismo. E sim, acredito, de educar gerações que por falta de oportunidades ainda não conhecem esse passado. Só assim locais que foram usados como prisões podem ser hoje espaços de preservação e resgate da memória dos que defenderam a livre organização política, que só as democracias permitem. Para podermos dizer "porões nunca mais" é preciso que o passado ilumine o futuro.
Eunício Oliveira, O Globo,
30/07/2012
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