Os trágicos afirmam a experiência humana existente em sua grandiosidade e miséria
No novo livro de poemas de Antonio Cicero, “Porventura”, o poeta diz trazer, como herança de seus ancestrais amazônicos, “não saudade da floresta, mas da cidade almejada”. Cicero tem a mais bela afirmação filosófica e existencial da modernidade que eu conheço. Para ele, moderna é a sociedade que não coloca nenhuma positividade no centro do mundo (Deus sendo a mais perigosa delas). Essa negatividade fundamental é o que caracteriza a época da razão crítica. Toda origem é mítica, o que há são cruzamentos, formas diversas, de que a cidade é o símbolo. Eu penso como Cicero. Apesar de tudo, afirmo a modernidade. Não há nenhuma outra época ou sociedade na História humana que eu considere melhor do que a presente (embora haja piores: todas as sociedades totalitárias). Ser índio deve ser maravilhoso, mas ser ocidental moderno brasileiro também é. Por que essa introdução, lançando de modo um pouco desconexo frases que encerram enormes problemas, numa coluna que anuncia tratar do meme e da revolta do momento?
Minha primeira reação ao assistir ao vídeo do adolescente Nissim Ourfali foi
captar seu humor involuntário (na verdade cheguei e pensar que não era
involuntário, mas sim um kitsch intencional, consciente). Mas, ao mostrá-lo a
Antonia, ela não reagiu com ironia, e sim chegou a chorar de simpatia pelo
rapaz. Eu a acompanhei nesse sentimento. E aqui começo a costurar os fios. O
vídeo de Nissim contém os elementos principais da tão depreciada vida
contemporânea: o suposto lixo cultural (na forma de séries televisivas
americanas), o turismo (a Israel e à já famigerada praia da Baleia), a música
pop, o consumo de bens frívolos (videogame, PC e TV) etc. etc. O vídeo é um
breviário da vida da classe média (no caso, alta) contemporânea, sob o que
críticos de esquerda costumam chamar de “horizonte rebaixado do capitalismo”. E
no entanto lá estão Nissim e sua família, felizes, amorosos e sorridentes. Não
parecem se sentir rebaixados. Até que ponto outros estão certos ao senti-lo em
nome deles?
Se Nissim e família representam no vídeo uma adesão plena aos ícones maiores da vida contemporânea, o grupo punk russo Pussy Riot representa, ao contrário, a crítica violenta a esse mundo. Brasil e Rússia são dois países muito diferentes, é verdade (uma sigla como BRIC só pode surgir da cabeça abstratizante e redutora de investidores financeiros), mas ambos compartilham as injustiças sociais do capitalismo. E, se o refrão do garoto Nissim é um singelo hino à individualidade (“Eu sou o Nissim Ourfali!”), as meninas do Pussy Riot se cobrem de balaclavas, os capuzes que, como lembrou Zizek num belo artigo, representam a ideia de coletividade e anonimato.
Num ensaio interessantíssimo, publicado na “New Left Review” (devo a indicação a Flavio Pinheiro e Paulo Roberto Pires), T. J. Clarke reivindica uma nova esquerda, uma “esquerda sem futuro”. Para o autor, a esquerda deveria se apropriar de uma perspectiva trágica da vida, que historicamente sempre pertenceu à direita, mas foi abandonada por esta em seu devir infantilizante, fundado no consumo de gadgets e demais frivolidades. O sentido geral do texto é uma crítica ao idealismo da esquerda tradicional, à sua recusa radical ao existente em nome de um futuro a ser inventado. Já a perspectiva trágica se baseia em certo pessimismo sobre o humano, isto é, sobre sua capacidade de se reinventar de modo mais harmônico e justo. Os trágicos afirmam a experiência humana existente em sua grandiosidade e miséria.
E eu com isso? Minha posição leva em conta todas essas linhas divergentes entre si. Não vou nunca abraçar uma esquerda que descarte a realidade presente in totum (a menos que se trate de uma realidade totalitária), mas não vou nunca abraçar plenamente uma realidade como a nossa, com todas as suas injustiças e também a sua infantilização da experiência humana. O melhor lugar do mundo pode não ser aqui e agora, mas também não é lá e outrora (ou no futuro). A paixão idealista tende a se confundir (será o seu efeito?) com um tédio da realidade. Para mim, ao contrário, a realidade é demasiada, falta-me tempo para vivê-la em todas as suas possibilidades. “A verdadeira vida está ausente”, dizia um poeta revolucionário. Nunca gostei desse verso.
Mais confundi do que expliquei nesta coluna, então me despeço com as palavras claras e trágicas do grande poeta Antonio Cicero: “nada sustenta no nada esta terra/ nada este ser que sou eu/ nada a beleza que o dia descerra/ nada a que a noite acendeu/ nada esse sol que ilumina enquanto erra/ pelas estradas do breu/ nada o poema que breve se encerra/ e que do nada nasceu”
Francisco
Bosco, O Globo, 22/08/2012
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