O que têm em comum o aquecimento global, a crise na
zona do euro e os massacres na Síria? O fato de ninguém ter o poder de
detê-los. Cada uma dessas situações vem se deteriorando em plena vista do
mundo. As três implicam graves perigos e o sofrimento de milhões de pessoas. Há
ideias do que fazer em relação às três. Mas não acontece nada. Há reuniões de
ministros, cúpulas de chefes de Estado, exortações de líderes sociais,
religiosos e acadêmicos. Nada. Diariamente, somos informados de que cada uma
dessas crises segue adiante na corrida desembestada rumo ao despenhadeiro.
E...? Nada. Não ocorre nada. É como assistir a um filme em câmera lenta em que
um ônibus cheio de passageiros ruma ao precipício, enquanto o motorista não
pisa no freio nem muda de direção. O problema é que todos estamos nesse ônibus.
No mundo atual, o que acontece em outro lugar, por distante que pareça ser,
acaba nos afetando. Mas minha metáfora é imperfeita. Supõe que o freio e o
volante funcionem e que exista um motorista com o poder de frear ou mudar de
rumo. Porém não é o que ocorre.
Com o aquecimento global é a mesma coisa. As evidências científicas avassaladoras confirmam que a atividade humana está aquecendo o planeta, o que gera variações climáticas traumáticas. Se as emissões de certos gases não diminuírem, as consequências para a humanidade serão desastrosas. E, se para alguns é fácil ignorar a tragédia síria, por estar muito distante, ou a europeia, por lhes ser alheia, é impossível ignorar os efeitos do clima sobre todos nós e sobre as gerações que vão nos seguir.
Essas três crises são uma manifestação de uma tendência que as ultrapassa e que molda muitas outras esferas: o fim do poder. Isso não significa que o poder vá desaparecer ou que já não haja atores com imensa capacidade de impor sua vontade a outros. Significa que o poder vem ficando cada vez mais difícil de exercer e mais fácil de perder. E que quem tem poder hoje está mais limitado em sua aplicação do que eram seus predecessores. O presidente dos EUA (ou da China), o papa, o chefe do Pentágono ou os responsáveis por Banco Mundial, Goldman Sachs, "The New York Times" ou qualquer partido político hoje têm menos poder do que aqueles que os precederam. O fim do poder é uma das principais tendências que vão definir o nosso tempo.
Moises Naim, Folha de São Paulo, 03/08/2012
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