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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Retórica e verdade

O que interessa é o discurso. O discurso cria os fatos

Naquele filme baseado na obra de Tennessee Williams – De repente, no último verão –, tem uma frase que ficou cravada em mim: “A verdade está no fundo de um poço sem fundo”. Como você, estou assistindo a cenas da novela do mensalão, essa Avenida Brasil que passa em outro horário e em todas as televisões. Mas é um reality show. Quando o procurador-geral da República apresentou aquele relatório de 5 mil páginas durante cinco horas, pensei: “Os réus estão perdidos. Cadeia neles!”. Depois ouvi um ou outro advogado defendendo os réus. Firmeza. Convicção. Citação de leis, parágrafos, incisos. E foram apontados erros da perícia técnica. Pensei: “É, as coisas não são como parecem ser”. Fui lendo os jornais. Fizeram cadernos especiais. Tentam ser imparciais, mas já condenam os réus. Alguns comentaristas foram ouvir juristas e advogados, disseram que os juízes do Supremo já têm o seu veredicto pronto antes de começar a encenação do julgamento.

Volto à minha ignorância e perplexidade. Saio do presente. Procuro abrigo em dois livros que escrevi há tempos: Barroco, do quadrado à elipse e O enigma vazio. Embora a verdade possa estar no fundo de um poço sem fundo, há, no entanto, algo objetivo e claro: a relação entre “verdade” e “retórica”. A verdade é uma produção retórica e linguística. Um discurso constrói e destrói certezas. A verdade, portanto, não está no fundo de um poço sem fundo, ela está boiando na superfície das frases onde os sofismas nadam, dão mergulhos e fazem acrobacias como os nadadores de balé olímpico.

No período barroco (em torno do século 17) os oradores jesuítas aprendiam a utilizar 256 tipos de sofismas. Aprendiam a defender uma causa e, imediatamente depois, tinham que defender o oposto. O fabuloso Padre Vieira, por exemplo, provou que d. Sebastião ia ressuscitar sob a forma de d. João IV e marcou o dia e a hora. Uma das contribuições interessantes dos filósofos dos anos 1960 (Foucault etc.) foi demonstrar que vivemos dentro de “formações discursivas”. O real é (também) um discurso. Certos discursos não falam sobre a verdade e a mentira. Certos discursos pretendem ser eles mesmos a verdade contra a mentira.

O que é a verdade? Cristo resolveu ao seu modo: “Eu sou o caminho, a verdade e vida”. Uns o consideram um alucinado. Outros, um Deus. Os filósofos escreveram infindáveis compêndios sobre a “verdade”, tentando diferenciá-la da mentira. Mais modesto, antes do mensalão, aproximei-me da questão. Pareceu-me instrutivo entender “verdade/mentira” como um jogo de revelação/encobrimento. Ao contrário da verdade, a mentira é uma estratégia de encobrimento, de ocultamento. E a mentira e a verdade são irmãs siamesas, uma é a contraface da outra.
 

Vejam o que ocorre na medicina entre o remédio e o placebo. Todos sabem que remédio é “verdadeiro” e o placebo é “mentiroso”. No entanto, quantas pessoas vivem e sobrevivem tomando placebo, comprovando que o placebo é o remédio? Um remédio mentiroso que cura. Portanto, num tribunal (como sabe qualquer advogado) o que interessa é o discurso. O discurso cria os fatos. Por isso tantos inocentes são (erroneamente) condenados e tantos culpados gozam da mais legítima (e vergonhosa) liberdade.

Affonso Romano de Sant’Anna, Estado de Minas, 12/08/2012

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