O advogado
Fábio Konder Comparato, esse admirável dom Quixote do mundo jurídico, comemorou
a confirmação do rótulo de torturador para o coronel reformado Carlos Alberto
Brilhante Ustra com uma frase exagerada: "A desonra do Estado brasileiro
no plano internacional acaba de ser desagravada". O exagero se vê pela
virtual coincidência com outro veredicto, na Argentina, que evidencia o abismo
no tratamento das violências praticadas pelos respectivos regimes militares. Na
Argentina, o general Jorge Rafael Videla foi condenado a 50 anos de prisão por
ter sido considerado responsável pela organização, durante a ditadura do
período 1976/83, do sistemático roubo de bebês nascidos no cativeiro de suas
mães. Ou seja, na Argentina, condena-se à prisão o principal chefe militar do
período mais agudo da repressão (Videla foi o comandante do Exército entre 1976
e 1981). No Brasil, nem um subordinado como Ustra, por importante que tenha
sido no esquema repressivo, vai para a prisão. Quanto mais os chefes, embora
uma figura respeitável como Paulo Sérgio Pinheiro diga que as torturas foram
"uma política de Estado" durante a ditadura 1964/85.
Sou até capaz de entender a diferença no tratamento dessa triste história por causa da aceitação, no Brasil, de uma anistia a meu ver manca. Manca porque foram anistiados os algozes, jamais punidos, e as vítimas, estas sim punidas no marco da lei em alguns casos, mas também à margem dela em tantos outros (não há lei na face da terra que autorize a fazer desaparecer adversários do regime de turno; no Brasil, ainda há 162 desaparecidos).
Aceitemos, de todo modo, que a anistia é irreversível e talvez nem seja útil revê-la. Mas continua inaceitável a demora do Brasil em passar a limpo a história das torturas e das demais violências do regime militar, mesmo que seja só para colar em quem merece o rótulo de torturador. Ou alguém aí acha que só Ustra o merece?
Na Argentina, o governo Raúl Alfonsín, o primeiro pós-ditadura, criou uma espécie de Comissão da Verdade, em 1983. Listou 8.960 casos de desaparecidos e apontou 1.351 responsáveis por sequestros e assassinatos de opositores, conforme levantamento do sítio "Opera Mundi", versão eletrônica da antiga imprensa alternativa.
No Brasil, o trabalho ficou por conta de dois religiosos (dom Paulo Evaristo Arns e o reverendo Jaime Wright, já morto). Posto de outra forma, só agora o Estado brasileiro tomou coragem de encarar seus fantasmas.
Clóvis
Rossi, Folha de São Paulo, 16/08/2012
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