Jornalismo é um exercício basicamente simples, que depende da boa execução de
apenas quatro verbos: saber ler, ouvir, ver e contar. Se alguém acha que ao
menos um desses verbos (o ideal seria que fossem todos) pode ser ensinado em
uma faculdade de jornalismo, deve mesmo ser a favor do diploma específico.
Quem, como eu, duvida dessa possibilidade só pode ser contra. Eu sou. Pegue-se
o verbo ler, em ambos os sentidos, o mais primário, de alfabetização para
compreender palavras escritas, e o mais nobre, o de gosto pela leitura. No
primeiro caso, ou se aprende a ler na escola primária ou nunca mais, salvo
raros casos de autodidatas. No segundo, tampouco a faculdade pode ensinar o
gosto pela leitura. Ou vem do berço ou se adquire nos primeiros tempos
pós-alfabetização. Como não creio que se possa escrever bem sem ler bastante,
depender da faculdade de jornalismo para desenvolver esse gosto só fará o
profissional chegar ao mercado de trabalho com um deficit talvez irreparável.
Abramo não tinha diploma algum.
Não obstante, foi convidado pela USP para ministrar curso de aperfeiçoamento
para estudantes de pós-graduação. Irônico, não?
Desconfio que boa parte das equipes com as quais Cláudio trabalhou
tampouco tinha diploma de jornalista, o que não impediu que fizessem grandes
jornais. Esclareço, antes que alguém suspeite que estou advogando em causa
própria, que eu, ao contrário de Kotscho e Abramo, tenho, sim, diploma
específico, aliás o único. Mas garanto que aprendi mais, na prática, com gente
como Kotscho, Abramo e tantos outros sem diploma do que na faculdade. Um
segundo ponto que me leva a ser contra o diploma específico é a evidência de
que nem a mais perfeita faculdade de jornalismo do mundo pode ter um currículo
que ensine a seus alunos todos os temas que, um dia ou outro, podem lhes cair
sobre a cabeça. Não dá para ensinar agricultura e transportes, tênis e
política, legislação e teatro -e por aí vai. Não dá.
Quem pensa em entrar para o jornalismo com um objetivo definido (jornalismo econômico, digamos) deve fazer economia e não jornalismo. Se tiver desenvolvido os quatro verbos-pilares (ver, ouvir, ler e contar), estará mais pronto para a profissão, na área específica, do que se fizer jornalismo. Último ponto: não entro na discussão sobre a diferença entre profissões (medicina, engenharia, por exemplo) que, mal exercidas, podem matar, e aquelas (jornalismo) que não podem e, portanto, não precisam de diploma específico. Jornalismo pode matar, sim, mesmo que seja moralmente. Mas é de uma presunção absurda supor que só faculdades de jornalismo ensinam ética.
Clóvis Rossi, Folha de São Paulo,
31/08/2012
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