Há mais de dois meses, os professores das
universidades federais estão em greve. Após duas propostas consideradas
insuficientes pela maioria do corpo docente, o governo parece disposto a
endurecer as negociações. No entanto há de estranhar a maneira com que uma
questão dessa natureza está sendo tratada. Ao ganhar as eleições, o governo
atual afirmou ser a educação sua prioridade. Mas, por mais que possa parecer
uma tautologia, colocar a educação como prioridade significa, entre outros,
assumir as demandas que vêm de seus profissionais como prioritárias. O que os
professores querem é um salário digno e uma infraestrutura adequada para
desenvolver atividades de docência, orientação e pesquisa. Enquanto algumas
pessoas que nada sabem da vida universitária usam espaços na imprensa para
afirmar que os professores são a "elite do funcionalismo" e que, por
isso, não deveriam reclamar, policiais rodoviários continuam ganhando mais do
que docentes. Os desafios brasileiros passam pelo fortalecimento da
universidade pública, com sua capacidade de formação e pesquisa.
A experiência de liberalização do ensino
universitário por meio da proliferação de universidades privadas foi um retumbante
fracasso. Tudo o que se conseguiu foi produzir levas de profissionais
semiformados, assim como instituições nas quais os professores acabam por ser
repetidores, por estar afogados em cargas horárias que não permitem o
desenvolvimento de pesquisas. Vez por outra, quando o processo de financiamento
das universidades públicas volta à tona, temos de ouvir duas opiniões no limite
do caricato. A primeira consiste no argumento etapista tosco que afirma:
primeiro, devemos investir na escola básica, depois, nas universidades. Claro. E,
enquanto o investimento da educação básica não chega a um nível adequado,
deixemos as universidades serem sucateadas e destruídas. Tais pessoas têm um
raciocínio binário incapaz de entender que o investimento em educação deve ser
extensivo, caso não queiramos perder completamente o bonde do desenvolvimento
social.
A segunda afirma que os professores universitários devem deixar de ser subvencionados pelo Estado e procurar financiamento para pesquisas na iniciativa privada. Só um exemplo: se um pesquisador em psicologia procurar desenvolver uma pesquisa mostrando a ineficácia de antidepressivos, a quem ele deve pedir financiamento? À indústria farmacêutica? Ou seja, ou o governo assume o custo de eleger a educação como prioridade ou é melhor não utilizar tal discurso em época de eleição.
Vladimir Safatle, Folha de São Paulo, 31/07/2012

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