Já parece haver, entre
os observadores da política brasileira, algum consenso sobre o que é o estilo
da presidente. Dilma Rousseff dá broncas espetaculares em seus ministros, já
tendo abalado a estabilidade emocional de alguns deles. Dilma microgerencia os
projetos do governo, muitas vezes passando por cima dos titulares dos
ministérios para lidar direto com o segundo ou terceiro escalão. Dilma tem pouca
paciência com barganhas políticas (mas há quem diga que o tempo a está tornando
mais paciente com elas). Dilma é uma negociadora dura que deixa claro o ponto
em que não pretende mais continuar conversando. Dilma é pouco propensa a
estabelecer relacionamentos pessoais próximos com aliados. (Lembram dos
churrascos do Lula com direito a pelada entre os ministros?) Dilma é mais
discreta, e provoca menos a oposição. Dilma tem menos diálogo com os movimentos
sociais do que tinha Lula.
Dilma concentra sua
atenção em um número limitado de problemas, o que para alguns é foco, e, para
outros, estreiteza. Já se lembraram de Max Weber para opor Dilma, a tecnocrata
racional-legal, a Lula, o carismático. E, o que talvez seja o aspecto que mais
aparece para a população em geral, Dilma tem parecido ser menos conivente com a
corrupção, demitindo mais ou menos rapidamente ministros denunciados pela
imprensa. A vontade de fazer o contraste com Lula talvez exagere esses
atributos, mas é provável que o retrato que emerge da sobreposição dessas
várias descrições seja razoavelmente fiel. A imagemde presidente gestora
corresponde, no mínimo, a um aspecto da autoimagem de Dilma. Em uma entrevista
à tevê em 2009, ela disse que seu grande objetivo, se eleita, seria aumentar a
eficiência e a capacidade de ação do Estado brasileiro.
Creio que devemos levar
essa afirmativa a sério, ao menos como sinalização do que Dilma pensa e espera
de si mesma. (Leitores diferentes terão opiniões diferentes sobre sua
capacidade de entregar o que diz pretender.) Já há, em termos de eficiência,
pelo menos alguns resultados palpáveis: segundo o economista do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (e crítico do governo) Mansueto Almeida, em junho
de 2012 houve um aumento da execução orçamentária dos ministérios (à exceção do
Ministério dos Transportes, abalado por uma série de escândalos), o que é uma
medida aproximada do quanto o governo consegue implementar seus projetos (mas
não, é importante frisar, do quão bons possam ser esses projetos).
A popularidade da
presidente sugere que as pessoas – além de compreender que mulheres podem atuar
em outros papéis que não apenas de mãe em música do Agnaldo Timóteo – têm uma
demanda por clareza política e rigor administrativo anteriormente não
satisfeita. Talvez porque, quando essa demanda aparecia no discurso da
oposição, lhes fosse apresentada como uma escolha: ou isso ou as políticas
sociais do Lula. Pode ser verdade o que se dizia na época da eleição de 2010,
que Dilma tinha muitas características semelhantes às de José Serra, mas tinha
a vantagem crucial de que não forçava ninguém a fazer essa escolha. Se a
população está certa em sua avaliação de Dilma, ou se apenas projeta nela suas
expectativas, é algo que descobriremos até o fim de seu mandato.
É claro que nem tudo
nessa história é estilo ou, o que talvez seja mais preciso, nem tudo no estilo
de uma Presidência é a personalidade do presidente. Muitas das diferenças entre
Lula e Dilma, e muito da viabilidade dos dois estilos, são explicáveis por
diferenças entre os momentos políticos em que cada um estabeleceu sua
assinatura individual. Por exemplo, se Dilma tem mais autonomia diante da base
parlamentar, também é verdade que enfrenta uma oposição muito mais fraca do que
a que confrontou Lula, especialmente após o racha do dem(que levou à formação
do PSD) e a catástrofe de Demóstenes Torres. A força do PSDB e PFL/DEM durante
o governo Luiz Inácio Lula da Silva (em especial durante o primeiro mandato)
aumentava o poder de barganha da base aliada, que podia ameaçar, com
credibilidade, passar para a oposição (com a qual, afinal, tinha mais afinidade
ideológica). Com a oposição fraca como está, os partidos menores calculam que
romper com o governo é se afastar do poder (e dos favores que ele distribui)
por um bom tempo. Em épocas de governo forte, a oferta de aliados cresce, e a
lei da oferta e da procura faz seu trabalho com o preço dos aliados. Não é só
de corrupção que estou falando, vejam bem: faz parte do jogo que os deputados
briguem por recursos para suas regiões e bases de apoio.
Por outro lado, se
Dilma tem menos diálogo com os movimentos sociais, em boa parte é porque tem
menos a lhes oferecer, dada a política econômica. Na análise já citada de
Mansueto Almeida (leiam esse cara), fica claro que a presidente está gastando o
dinheiro que tem para gastar, fundamentalmente, com programas sociais (o
MinhaCasa, Minha Vida, por exemplo, está recebendo uma boa grana). Esses
programas são direcionados ao que o cientista político André Singer identificou
como a base social do lulismo: os pobres desorganizados, que ele chama de
“subproletariado”.
A prioridade dos gastos
de Dilma não é, portanto, a base social do pt, onde predominam os setores
populares organizados. E definitivamente não são os setores de renda média
tradicionalmente associados ao pt, como o funcionalismo público. Diante da
crise mundial, Dilma tem preferido usar o resto do dinheiro de que dispõe para
tentar incentivar a economia. (Pode-se discutir, é claro, o quanto essas
medidas serão eficazes.) Isso quer dizer que, a menos que a presidente decida
cortar gastos sociais, não há muito dinheiro para atender reivindicações de
ninguém. Como seria de se esperar, isso não está semeando alegria entre os
funcionários públicos. Mas tampouco os funcionários ficariam felizes se Dilma
os convidasse para um café, lhes fizesse um cafuné, e explicasse, no final, que
não tem dinheiro para aumentar o salário de ninguém. Se Dilma aumentasse os
salários, por outro lado, poderia receber os sindicalistas a golpes de pá que
não perderia seus votos no concurso de Miss Simpatia. Isso vale, em dobro, para
deputados da base governista e seus pedidos de liberação de emendas
parlamentares. Não se trata de estilo.
As diferenças de estilo
também podem refletir mudanças no jeito com que diferentes atores se relacionam
com a nova presidente. Não sabemos se partidos aliados, ou o pt, não estão
testando o terreno para saber se podem pedir mais de Dilma do que pediam de
Lula; se for este o caso, isso exigirá, por parte da presidente, demonstrações
de rigor para segurar a sede com que vão ao pote. Lula inspira deferência muito
maior dentro do pt, o que talvez o dispensasse de maiores demonstrações de
autoridade. Dilma, por outro lado, sofre muito menos preconceito de classe, o
que a livra de ataques elitistas (“Vamos acabar com essa raça”) que precisariam
ser respondidos com gestos populistas ameaçadores (“Vamos exterminar o dem”).
A atitude diferente
diante da oposição, e mesmo a atitude diante de aliados acusados de corrupção,
também é reflexo de diferenças na rede de apoios dos dois presidentes. Há
testemunhos de que, após a crise do mensalão, Lula procurou se entrincheirar
com os setores com os quais podia contar em qualquer eventualidade, em especial
os sindicatos. Dilma não tem ninguém com quem possa contar com esse grau de
certeza; por essas e outras razões, tem muito menos meios de administrar um
grande escândalo de corrupção, e precisa construir mais pontes com a oposição.
Finalmente, não se pode
descartar a possibilidade de as diversas manifestações de simpatia ou antipatia
pelo “estilo Dilma” serem outra coisa: acertos de contas tardios e meio
envergonhados de gente que faz tempo percebeu que vinha falando besteira
(contra ou a favor) sobre o governo Lula, mas que já tinha empenhado sua posição,
bem como sua credibilidade em sua roda de truco, a favor ou contra o sujeito, e
achou mais fácil mudar de opinião agora que mudou o presidente.
Tenho amigos de
esquerda que romperam com o governo Dilma por causa da Usina de Belo Monte, e
lamentam a virada à direita que esse projeto “ecocida” imposto de cima para
baixo representa. Mas Lula também era a favor de Belo Monte. Parece-me que
esses colegas superestimaram o esquerdismo (ou, no mínimo, o ambientalismo) de
Lula, e só por isso veem uma grande virada em Dilma. Da mesma forma o fazem os
que passaram oito anos soando o alarme de comunismo, totalitarismo,
aparelhamento, Foro de São Paulo, o “polvo” da Veja, e depois
acharam meio difícil admitir que Lula, se tinha lá seus problemas, nunca esteve
nem sequer perto de ser um fanático de esquerda. É mais fácil para essa turma
dizer que a Dilma é tão diferente de Lula que já é possível reconhecer uma ou
outra qualidade em um governo do pt. Nessa hipótese, o que está havendo é menos
uma racionalização do governo e mais uma racionalização da discussão política,
que se confundiu um pouco vendo o Lula implementar políticas moderadas.
O estilo de Dilma
também é sintoma de seu projeto. É possível, é claro, que Dilma tenha escolhido
seu projeto por ser o tipo de tarefa que atrai alguém com sua personalidade. E
é provável que Lula a tenha escolhido como sucessora porque também apóstou na
importância do projeto, e viu em Dilma alguém capaz de levá-lo adiante.
Quando Dilma era
ministra de Lula, seu nome era frequentemente associado ao
“desenvolvimentismo”. Esse é um nome que já foi usado para descrever coisas tão
diferentes que talvez não seja mais muito útil, mas, em geral, se refere à
defesa de que o Estado, sem substituir a iniciativa privada, tente acelerar ou
induzir o desenvolvimento com obras de infraestrutura, política industrial,
intervenção na taxa de câmbio ou outras coisas do tipo. Em grandes linhas, e
com idas e voltas, descreve a política econômica brasileira entre Vargas e o
fim da ditadura militar. Em fases diferentes, o desenvolvimentismo foi mais
estatista ou mais privatista, democrático ou autoritário, com grande
participação do capital estrangeiro ou nacionalista. Produziu altas taxas de
crescimento por algumas décadas, mas desabou espetacularmente sob o próprio
peso na passagem para a década de 80.
A moderna democracia
brasileira nasce justamente na crise do desenvolvimentismo, e convive
problematicamente com sua memória. As grandes realizações do Brasil nas últimas
décadas foram correções de legados ruins do desenvolvimentismo: a hiperinflação
(que só acabou em 1994) e a desigualdade (que só agora caiu abaixo do que era
nos anos 60). Por outro lado, o crescimento econômico brasileiro na era
democrática foi baixo, bem mais baixo do que no período desenvolvimentista. Por
estupenda que tenha sido a vitória de Fernando Henrique Cardoso sobre a
inflação, ela se deu ao preço de o Brasil ter a maior taxa de juros do mundo.
E, por mais indiscutivelmente justas que sejam as políticas sociais de Lula, é
fato que mais dinheiro para a área social é menos dinheiro para investimento.
Isto é: a herança que Dilma recebeu de seus antecessores inclui a prataria, mas
também aquele quadro feio de palhaço chorando.
Quando Dilma escolheu
como prioridade recuperar a capacidade de ação do Estado, indicou disposição
para enfrentar esse nó restante da transição democrática. O leitor pode chamar
essa postura de “desenvolvimentista”, dependendo do que entender por
desenvolvimentismo, mas o que importa é o foco na remoção de obstáculos para o
crescimento. Dilma se preocupa com o financiamento de investimentos de longo
prazo e com a perda de competitividade da indústria. Dilma quer criar condições
para a redução da taxa de juros e resolver carências de capital humano. Dilma
fala muito mais em políticas de inovação tecnológica do que seus antecessores.
O desafio é implementar essa agenda sem repetir as violências praticadas pelo
velho desenvolvimentismo contra a democracia, a boa gestão macroeconômica, o
meio ambiente ou a igualdade.
Há quem diga que os
velhos vícios estão de volta: à esquerda, militantes ambientalistas críticos da
construção da Usina de Belo Monte, como o antropólogo Eduardo Viveiros de
Castro, argumentam que Dilma demonstra a mesma despreocupação com direitos
indígenas que o regime militar demonstrava. À direita, o economista Alexandre
Schwartsman manifesta ceticismo em relação ao compromisso do atual governo com
o regime de metas de inflação herdado de fhc. Ainda que admitamos que Dilma
escolheu para si um desafio que eventualmente teria que ser enfrentado, é
preciso admitir que a escolha traz riscos significativos.
É fácil ver que
muitas das características do estilo Dilma derivam da tarefa que ela se
colocou. Os problemas que a presidente tem à sua frente não vão ser resolvidos
por um grande plano econômico, por melhor que seja, ou por um ou dois programas
sociais bem desenhados. Se Dilma é detalhista é porque os problemas que
enfrenta agora exigem desatar centenas de nós menores. Se prefere discussões
técnicas, é porque todos esses problemas têm aspectos técnicos absolutamente
infernais. (Se alguém te disser que basta vontade política para baixar os
juros, ou reduzir os gastos públicos, nunca mais ouça o sujeito.)
O estilo Dilma,
portanto, é a resultante de uma personalidade, uma conjuntura política e um
projeto. Resta saber qual a viabilidade desse conjunto nas circunstâncias
atuais. Até porque, convenhamos, a conjuntura faz você desejar que o sujeito
que sempre aparece nessas horas dizendo que “o ideograma chinês para crise é o
mesmo para oportunidade” seja obrigado a lavar as cuecas de todo o Exército de
Libertação Popular para ver que oportunidade ele encontra lá dentro.
Uma crise profunda como
a que atinge a economia mundial desde 2008 exige certo tipo de liderança. Em
horas como essa, é bem mais importante ser capaz de evitar o pânico do que
despertar entusiasmo. Dificilmente se pode acusar Dilma de ter ficado parada.
Os bancos governamentais agiram coordenadamente para colocar pressão sobre os
juros dos bancos privados. Dilma promoveu uma série de isenções tributárias
(incluindo a desoneração da folha de pagamento para vários setores), deu mais
dinheiro para o bndesemprestar, lançou um pacote de concessões ao setor privado
na área de infraestrutura, e arriscou um protecionismo muito questionável.
Para tornar a redução
de juros possível, a presidente arriscou seu capital político alterando a
rentabilidade da poupança, o que foi uma jogada ousada. Alguns críticos têm
reclamado da falta de reformas que beneficiem a economia no longo prazo, mas o
foco atual do governo no curto prazo é menos um sintoma de nossa velha inércia
do que a consequência do fato de que esse curto prazo que temos pela frente é
muito mais perigoso do que os curtos prazos costumam ser: os curtos prazos não
nascem todos iguais, e o atual é particularmente horroroso. Alguns dos que
criticam o governo por miopia no meio de uma crise desse tamanho estão sofrendo
de severa hipermetropia, mesmo se as reformas por eles defendidas forem uma
excelente ideia e merecerem mesmo ser implementadas.
Se a crise durar menos
do que se espera, é possível que as medidas tomadas até agora, ou outras da
mesma natureza, sejam suficientes para blindar o Brasil contra os piores
aspectos do desastre. Agora, podemos nos perguntar, quais as chances de a crise
durar pouco? Certas coisas que hoje não parecem prováveis precisariam
acontecer. Nos Estados Unidos, algum acordo entre Obama e oposição precisaria
ser celebrado para garantir que o governo jogue mais dinheiro na economia agora,
estimulando-a, e se planeje para economizar mais (bem mais) quando a economia
voltar a funcionar. Na zona do euro, a Alemanha precisaria aceitar ter uma
inflação maior do que a dos países devedores (Grécia, Espanha, Portugal,
Itália), em troca de promessas, críveis, de que esses países vão tentar
reformar suas economias: quer dizer, o eleitorado alemão vai ter que aceitar
riscos por causa dos países devedores, e o eleitorado dos países devedores vai
ter que aceitar sacrifícios para limitar o risco dos alemães.
E se vocês acharam que
isso tudo já estava difícil, a China, que é quem costuma vender para essa turma
toda (e comprar da gente), vai ter que se voltar mais para o mercado interno.
Isso quer dizer mexer no arranjo que até agora deu muito certo: poupança
altíssima, investimento altíssimo e dependência das exportações. Para a China
desenvolver seu mercado interno, vai ter que implementar reformas dificílimas
(na remuneração da poupança, na propriedade da terra, nas políticas sociais, no
financiamento dos governos locais), e todas elas, sem exceção, ameaçam algum
interesse poderoso na política chinesa.
Pode ser que tudo
isso seja resolvido, ou, pelo menos, resolvido o suficiente para encaminhar a
solução da crise, mas seria irresponsável apostar nisso. As exigências que a
crise econômica está fazendo à política estão léguas além do que seria razoável
ou parece factível. O cenário mais provável para os próximos anos inclui baixo
crescimento entremeado com choques negativos, produzidos na tentativa de desemperrar
os mecanismos políticos nos países desenvolvidos e na China.
Isso dificulta a
realização do projeto da presidente e pode alterar drasticamente as condições
políticas em que o “estilo Dilma” tem operado com sucesso. Convém aqui examinar
o cenário pessimista, em que a crise bate fundo na economia brasileira, a
arrecadação cresce devagar, o desemprego sobe – enfim, nada que nós nunca
tenhamos visto acontecer. Há, em primeiro lugar, o risco de o dilmismo entrar
em conflito agudo com a herança de Lula. Se a situação piorar e a quantidade de
recursos encolher, Dilma pode ter que escolher entre abandonar seu plano
desenvolvimentista inicial ou sacrificar as conquistas sociais de Lula; isto é,
escolher entre aumentar o investimento público ou manter os gastos sociais.
Caso opte por cortar os
gastos sociais (o que me parece improvável), Dilma corre um sério risco de
perder o apoio da base social do lulismo (os mais pobres). Isto é, Dilma teria
que contar apenas com o apoio que conquista sozinha, sem o contágio da
popularidade de Lula. O que hoje nela é visto como objetividade e determinação
aos poucos seria reinterpretado como frieza e insensibilidade social. Se Dilma
perde o lulismo (o que é diferente, vejam bem, de perder o pt), corre o risco
de se aproximar demais da marca José Serra. É verdade que muitos eleitores de
Serra na classe média têm se entusiasmado por Dilma, mas não sabemos se esse
apoio resistiria a uma deterioração da economia ou a uma crise política mais
séria. Por esses e outros riscos, seria bastante surpreendente se Dilma
escolhesse sacrificar a herança de Lula.
Há, é claro, a
possibilidade de abandonar a herança de fhc, uma proposta em cuja defesa,
infelizmente, não faltará quem saia na esquerda. Isso poderia ser feito só pelo
lado fiscal, aumentando o gasto com investimentos e com a área social muito
além do que seria responsável, ou substituindo o comando do Banco Central por
uma equipe mais dócil que aceitasse baixar os juros muito mais do que seria
responsável. Implicaria, naturalmente, voltar a conviver com inflação mais
alta.
Isso teria tudo para
ser um desastre, porque – repitam 100 vezes comigo – a inflação sob controle é
tão parte do lulismo quanto os gastos sociais: os aumentos da renda dos pobres
seriam facilmente anulados por uma inflação só um pouco mais alta. Aqui também,
cedo ou tarde, Dilma perderia o apoio dos mais pobres, além, é claro, de
comprar brigas violentas com os setores que não gostavam de Lula, mas
simpatizam com ela (parte da classe média, do empresariado etc.). Dilma
perderia, definitivamente, sua reputação de competência gerencial, adquiriria a
imagem de ideóloga populista radical (como a de Cristina Kirchner), seria vista
como traidora de Lula, como destruidora do legado de fhc, e seu estilo
“distante dos partidos” rapidamente apareceria como “incapaz de agradar quem
quer que seja”. Os riscos associados a essa opção também a tornam improvável.
Ou seja, governar sem
dinheiro durante as grandes crises cíclicas da economia moderna é uma desgraça,
é horroroso, não aconselho a ninguém. Mas isso não quer dizer que, mesmo que a
crise piore, não haja na-da que Dilma possa fazer. Só não há nada que seja
fácil. Em vez de crescer a partir das conquistas de fhce Lula, Dilma teria que
partir da solução dos problemas que os dois lhe legaram, em especial os dois
citados acima: os juros muito altos e o pouco espaço no orçamento público para
investimentos após a expansão dos gastos sociais.
Dilma poderia, por
exemplo, tentar enfrentar a parte (vejam bem, é só uma parte) dos juros altos
que, segundo gente que entende dessas coisas, é causada por mecanismos meio
emperrados na economia brasileira. Não estou falando de ir lá no prédio do
Banco Central e pedir para o Alexandre Tombini baixar os juros na marra (isso
seria abandonar a herança do fhc). A ideia é o governo economizar dinheiro (sem
isso a conversa não vai muito adiante) e tentar resolver imperfeições nos
mecanismos da economia brasileira que mantêm os juros em um patamar alto demais
para padrões internacionais. A complexidade do problema é infernal, e a coisa
não é para amadores.
Se Dilma tentar esse
caminho e der errado, pode acabar abandonando a herança de
fhcinvoluntariamente, comas consequências já previstas. Mas, se der certo, será
naturalmente um enorme sucesso, mesmo que suas consequências só sejam visíveis
alguns anos depois (com a possibilidade, inclusive, de algum outro presidente
colher esses benefícios, e Dilma jamais receber qualquer crédito). Uma outra
alternativa seria preservar os gastos sociais de Lula e “tucanizar” um pouco
suas propostas para aumentar o investimento, para que não concorra com os
gastos sociais pelos poucos recursos no orçamento. O uso de concessões nos
serviços públicos, como foi feito recentemente com o pacote para rodovias e
ferrovias, pode ser interpretado dessa forma. A interpretação corrente, porém,
não é essa: é que Dilma descobriu que o Estado brasileiro é ainda mais
ineficiente do que ela imaginava. Isso é parte da verdade, mas não acho que
seja tudo, ou o mais importante. Mesmo se o Estado fosse inteiramente capaz de
investir os recursos que agora esperamos que a iniciativa privada invista, essa
seria a melhor maneira de gastar esse dinheiro? Politicamente, creio que não: é
melhor para Dilma manter as políticas sociais, e o apoio político que elas
trazem entre os pobres.
Leitores diferentes
terão opiniões diferentes sobre a probabilidade de essa estratégia ser
eficiente, mas, a crise piorando, não haverá comofazer desaparecer a escolha
entre ampliar gastos sociais ou ampliar investimentos. Ainda na linha de
transferir a responsabilidade do investimento para o setor privado, o governo
poderia promover algumas reformas tributárias ou regulatórias que favorecessem
a atividade empresarial sem conflitar demais com sua posição de esquerda. Por
exemplo, duvido que muita gente na esquerda se importasse caso Dilma tivesse
como objetivo melhorar a posição do país nos rankings de ambiente de negócios
(dificuldade de abrir e fechar uma empresa, complexidade do sistema tributário
etc.). Isso seria visto com bons olhos por novos simpatizantes de Dilma na
velha classe média, mas é possível que também o fosse na nova, a classe C do
Lula: ainda não sabemos o tamanho do potencial empreendedor ali travado até
agora.
A estratégia
tucanizante ofende profundamente muita gente no pt(bem como nos outros partidos
de esquerda da base governista), mas é provável que, em algum momento, o
partido seja forçado a escolher entre suas preferências por estatismo econômico
e por políticas sociais generosas. O discurso da oposição, em especial do psdb,
pode ser fortalecido, o que, como já vimos, aumenta o preço dos membros da base
aliada. No mínimo, o debate ideológico pode ser reiniciado, o que tende a
dissolver a imagem de uma Presidência puramente técnica. Se a estratégia der
errado, Dilma realizará a façanha de não agradar ninguém; mas, se der certo,
reforçará suas credenciais de pragmática e acima de interesses partidários
mesquinhos. E, naturalmente, como em tudo que envolve concessão pública, haverá
denúncias de corrupção (várias delas, sem dúvida, verdadeiras), que ameaçarão
um aspecto crucial da imagem da presidente.
A política brasileira
está organizada muito mais em torno da defesa das conquistas de fhcou de Lula
do que a partir de projetos de resolução das tarefas que nenhum dos dois
resolveu. Seria desastroso se qualquer das duas heranças fosse desperdiçada, e,
se o preço para preservá-las for se mover mais lentamente, eu faria isso. Mas a
margem para Dilma se desviar desses problemas é bem menor do que a de seus antecessores,
e a situação internacional não está com cara de que vai ampliá-la. É possível
que, dentro de seu estilo de tocadora de projetos, Dilma acabe implementando
uma grande reorganização da discussão pública brasileira, quer queira, quer
não.
Celso Rocha de Barros, revista
Piauí, 09/2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário