A vigilância impede nosso
crescimento como agentes morais
O Colégio
Rio Branco, uma das mais tradicionais escolas particulares de São Paulo,
instalou câmeras de vigilância nas salas de aula. Até onde devemos avançar na
utilização de tecnologias de monitoramento? Esse é o melhor teste para
distinguir consequencialistas, isto é, aqueles espíritos essencialmente
pragmáticos, dos deontologistas, os partidários de éticas do dever. E o grande
problema com as câmeras, como observou o filósofo Emrys Westacott, é que elas
funcionam. Sua mágica é que fazem com que a obrigação coletiva (o cumprimento
de regras) e o interesse próprio (não ser apanhado), que muitas vezes andam
separados, coincidam. É só acionar uma dessas engenhocas que as pessoas começam
a se comportar melhor. Como ser contrário a isso?
O dilema não tem solução, ou melhor, a resposta muda conforme o contexto. A maioria de nós tende a ser favorável à colocação de câmeras em lugares públicos de grande afluxo de pessoas, como aeroportos e prisões, já que elas melhoram bastante a segurança. Mas não aderimos tão entusiasmadamente a elas em situações mais privadas, como o quarto conjugal ou, de forma menos dramática, o ambiente de trabalho. E a razão, creio, é que prezamos a ideia de aprimoramento moral. Eu pelo menos, apesar de minhas inclinações consequencialistas, hesitaria em matricular meus filhos numa escola sob vigilância perpétua.
Helio
Schwartzman, Folha de São Paulo, 28/09/2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário