Tempos atrás,
presenciei um sobrinho de 2 anos e meio apontar para a barriga grávida de
sete meses de sua tia e dizer num tom de raivosa censura: “Pensa que eu não
sei?!... Você comeu o seu filho!!!” Todos rimos com sua tirada e ele saiu da
sala aparentando uma indignação maior ainda com nosso descaso frente a tão
grave acusação. Meu sobrinho estava expressando uma fantasia típica daquilo que
a psicanálise chama de fase oral canibalística ou oral-sádica, que se instala
quando a criança não mais suga o leite e passa a mastigar os alimentos. Nessa
fase predominam as fantasias de comer a mãe ou a de ser por ela comida. Tendo
como modelo a ingestão de alimentos através do sugar ou do mastigar, a ideia de
engolir a mãe é uma forma imaginária de a criança expressar sua dificuldade em
se discriminar da mãe e dela se separar, representando então seu desejo de
manter a ligação fusional com ela, o estar dentro dela, ou tê-la dentro de si.
Assim os processos
fisiológicos corporais da ingestão de alimentos e a subsequente excreção dos
dejetos são modelos para as representações psíquicas que estabelecem as
referências básicas sobre o que é interno ou externo à mente, ao que está
dentro ou fora do corpo, ao que é do eu ou do outro. São protótipos dos
importantes mecanismos psíquicos de incorporação (“vou comer minha mãe, assim a
retenho dentro de mim e não me separo dela”), introjeção (“vou guardar essa imagem
de minha mãe em minha mente, pois não quero e não posso perdê-la”),
identificação (“vou manter comigo alguns traços e elementos que representam
minha mãe e eles vão organizar meu psiquismo, vão me permitir ser como ela em
alguns aspectos importantes de mim mesmo”) e de projeção (“vou expulsar de mim
estes sentimentos ou pensamentos que não tolero reconhecer como meus”). Claro
que esses não são processos voluntários e conscientes, e sim inconscientes.
Nota-se que a
fantasia mais arcaica de comer a mãe evolui para uma representação mais
simbólica, na qual características da mãe passam a integrar o psiquismo do
sujeito via identificação. As fantasias próprias da pulsão oral possivelmente
estavam na base do comportamento canibal apresentado por grupos humanos no
início dos tempos, quando guerreiros comiam os inimigos mais valorosos visando
a se apoderar de suas qualidades.Com a evolução dos costumes sociais, esse
hábito foi substituído por sucedâneos culturalmente aceitos e valorizados, como
os banquetes rituais ainda hoje praticados nos quais a refeição em comum
reforça os laços de amizade e a aliança entre os comensais. De ato bárbaro
reprimido, o canibalismo é sublimado e se transforma na eucaristia, o
sacramento mais sagrado do cristianismo, através do qual os fieis comem a carne
e bebem o sangue do Redentor.
Essas fantasias
orais universais pelas quais todos passamos e que sofreram um trabalho de
repressão e sublimação, em casos graves de psicose podem regredir à sua mais
primária formulação e serem concretizados na realidade como atos de
canibalismo.É o que ocorreu recentemente em Garanhuns com um grupo auto
denominado Cartel. Jorge Beltrão e duas seguidoras mataram e esquartejaram pelo
menos três mulheres, comeram parte de seus corpos e usaram a carne na confecção
de empadas e pastéis. O grupo mantinha uma menina de 5 anos, possível filha de
uma das mulheres mortas, que foi quem indicou o local onde os corpos haviam
sido enterrados, no quintal da casa onde moravam.O grupo foi preso por ter
Jorge Beltrão usado o cartão de crédito de uma das mulheres cujo
desaparecimento fora notificado à polícia. Na casa foi encontrado um livro
Relato de um Esquizofrênico, escrito por Beltrão, no qual relata suas vivências
delirantes e dá detalhes dos crimes.
Em 2001, caso mais
espantoso ainda ocorreu em Rotenburg, Alemanha. Arwin Meiwes expressou seus
desejos canibais num chat da internet e um homem, Bernd Brandes, apresentou-se
para satisfazê-los. Essa inacreditável associação, na qual uma pessoa anuncia
querer devorar alguém e outra que se apresenta para ser devorada, só pode ser
compreendida dentro da lógica própria das arcaicas fantasias inconscientes já
mencionadas. Poderíamos pensar que, em regressão psicótica, os dois homens
encenaram concretamente a fantasia expressa por meu sobrinho de 2 anos e meio:
um deles ocupa o lugar da mãe devoradora de bebês, o outro é um suicida
possivelmente tomado pela fantasia de ser devorado por uma mãe sádica. São
hipóteses possíveis sobre tão inusitado acontecimento, cuja comprovação necessitaria
um trabalho direto e minucioso com os praticantes desse ato extremo.
A importância do
saber psicanalítico é justamente mostrar que há um sentido na desrazão. Mesmo
nos atos mais incompreensíveis e distantes do pensamento racional há uma lógica
secreta a ser rastreada no passado do paciente, em suas relações afetivas, em
sua vida psíquica inconsciente. A psicanálise permite formular uma afirmação
surpreendente – quanto mais violento é o ato homicida, quanto mais em sua
execução o assassino rompe com a integridade do corpo da vítima,
esquartejando-a, e viscerando-a, etc., mais ele está concretizando na realidade
as fantasias inconscientes próprias aos primeiros estágios de vida,referentes
aos embates imaginários do bebê com sua mãe, como mostrou Melanie Klein.
Sergio Telles,
Estado de São Paulo, 28/04/2012
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