Continuo pensando em Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, o canibal do
agreste. Ele tem uma visão do mundo que justifica sua vida e seus atos. Com
suas duas companheiras, ele era encarregado de uma missão divina: devia
encontrar mulheres perdidas e purificá-las. Essa purificação passava pelo
assassinato e pela ingestão da carne das escolhidas. A visão e a missão de
Jorge eram delirantes, mas o que é um delírio? O senso comum e a psicopatologia
concordam: delírio é uma convicção inquestionável, incorrigível e muito pouco
plausível. Além disso, um delírio não é apenas um exercício de fantasia, ele
preenche a função (crucial) de dar sentido à existência do indivíduo que
delira. São poucas as pessoas saudáveis a ponto de conseguir viver sem se
atormentar com a necessidade de resolver, como se diz, o enigma da vida. Ou
seja, são poucas as pessoas para quem a experiência concreta se justifica por
si só, pela alegria de viver. A maioria precisa recorrer a crenças que digam
por que e para o que estamos aqui.
A definição de delírio (no "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", DSM-IV) diz que uma pessoa não pode ser diagnosticada como delirante se sua crença é "normalmente aceita por outros membros da cultura ou da subcultura dessa pessoa" -"um artigo de fé religiosa" não pode ser um delírio. Síntese paradoxal: uma religião individual é um delírio, e um delírio coletivo deixa de ser delírio e se torna uma religião. É um pouco frustrante dispor só de critérios quantitativos para decidir o que é delirante. Mas talvez a capacidade de compartilhar uma crença com outros já seja o sinal de uma certa "normalidade".
Jorge e suas companheiras são loucos e delirantes. Será que a loucura e o delírio dispensam qualquer juízo moral? Será que, moralmente, todo delírio se vale?
Não estou convencido disso. Entendo que a urgência de dar sentido à vida leve alguém a escolher uma religião ou, se ele não conseguir, a elaborar um delírio próprio. Mas cada um é responsável pela qualidade da religião que escolhe ou do delírio que ele elabora.
Comparemos religiões. Posso acreditar que Deus me reconhecerá como seu filho à condição que eu leve uma vida ilibada e, a cada noite, eu me açoite, no silêncio do meu quarto. Ou, então, posso acreditar que ele me reconhecerá como filho à condição que eu desmascare, prenda e execute os pecadores, mundo afora. Comparemos delírios. Posso acreditar que Deus quer que eu mude de sexo. Ou posso acreditar que Deus me encarregou de andar com pinças e bisturi no bolso, para mudar o sexo dos outros. Conclusão: uma religião ou um delírio segundo os quais os outros deveriam pagar para que MEU mundo faça sentido são, no mínimo, provas de mau caráter.
Dúvida diagnóstica. Os canibais do agreste chamaram a atenção da polícia quando usaram o cartão de crédito de uma das vítimas. Isso era também parte do "ritual de purificação"?
Consideremos ainda uma frase do memorial de Jorge, descrevendo o fim da primeira das três vítimas: "Eu, Bel e Jéssica nos alimentamos com a carne do mal, como se fosse um ritual de purificação, e o resto eu enterro no nosso quintal, cada parte em um lugar diferente". Em tese, um delírio diria que aquilo ERA, sem sombra de dúvida, o ritual de purificação -nada de "como se fosse".
Se o tribunal me consultasse como perito, talvez eu alegasse o estelionato e essa frase para afirmar que Jorge não é um louco, mas um perverso, que manipulou duas abobadas e deixou alguns escritos, tudo com a intenção de urdir crimes sinistros e de ser reconhecido (e assim "desculpado") como louco.
Contardo
Calligaris, Folha de São Paulo, 26/04/2012
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