Com a queda do Muro de Berlim, no fim dos anos 1980, muita gente passou a ironizar a distinção esquerda/direita. “Isso é bobagem, não tem mais sentido no mundo contemporâneo”, diziam com um quase sorriso, como se revelassem uma verdade evidente a qualquer criança. A partir daquele momento, as indicações de posição ideológica deixaram de valer. Não se tratava, é claro, da superação das divergências políticas, mas de uma certa arrogância prévia de uma vitória anunciada pelo chamado neolineralismo (que hoje nega seu nome de batismo). A partir daquele momento valia a liberdade e estavam sepultadas todas as tentativas de crítica ao capitalismo. O mundo era uno. O que se sucedeu foram acusações ao último dos regimes comunistas, o cubano, como a única ditadura do mundo, tão caduca quanto os carros e os prédios caindo aos pedaços da ilha do Caribe. Uma espécie de fóssil político.
A derrocada era
questão de tempo. Nos países ditos do Terceiro Mundo se anunciavam condições novas
de comércio internacional, capitaneada pelos interesses das grandes economias
centrais, EUA e Europa à frente. O mundo de ocidentalizava ao norte e a
integração seria dada por submissão explícita aos grandes interesses do mercado
e das instituições bancárias transnacionais. Eles eram ricos, logo sabiam o que
era melhor para o mundo.
Tudo foi bem durante um tempo. Depois a receita desandou. Em primeiro lugar, o mundo “descobriu” que havia outras ditaduras além da de Fidel. Começaram a ser denunciados regimes, bancados por décadas por países do Primeiro Mundo, como tiranias cruéis, sanguinárias, injustas e autocráticas. Egito à frente, foram caindo governos de vários países do Norte da África, com ditadores que estavam no poder há décadas. Os interesses comerciais e geopolíticos haviam bancado ditaduras que, assim que começaram a cair, foram seguidas de indignados protestos das nações que até há pouco os sustentavam. Voltou-se a falar em direita e esquerda, mesmo que com certo constrangimento.
Antes disso, na negociação dos grandes blocos comerciais, a articulação de países do Sul mostrou que acordos como os da Alca e assemelhados não teriam aprovação de países que pretendiam desenvolver seus mercados internos, atacar protecionismo contra seus produtos e escolher novos parceiros comerciais. Houve quem falasse em falta de senso político, em miopia, em provocação. O fato é que vários tratados regionais foram inviabilizados pela soberania de países que decidiram produzir, comprar e vender de acordo com suas necessidades e conveniências, e não dos interesses dos países ricos. Mais uma vez, teve gente que voltou a falar em esquerda e direita sem ter medo das palavras. Afinal, a distinção, ainda que política, tem repercussão na economia e na forma de se pensar o desenvolvimento.
A crise da economias ricas em razão da financeirização e dos subprimes mostrou o castelo de cartas sobre o qual se armavam as economias mais ricas. De repente, bancos que não aceitavam remediados como correntistas, quebravam e deixavam muitos ricos com as calças na mão. As hipotecas não valiam nada, os empregos murcharam e a confiança no mercado de papéis se liquefez. Mesmo na quase unidimensional sociedade norte-americana (como definiu Marcuse), houve que falasse em esquerda e direita ao atacar as políticas de amparo do sistema financeiro intentadas por Obama. Sempre com muita confusão, é verdade.
A mais recente retomada das palavras mágicas veio com as eleições na França (depois de ter ensaiado seu retorno em outros pleitos eleitorais na Europa). A derrota de Sarkozy no primeiro turno das eleições foi seguida por interpretações francas e desabusadas que falam em esquerda e direita sem pejo. Sarkozy, que era uma espécie de homem acima das distinções, um liberal modrno, hoje é visto como é de fato quando se olha no espelho: um político de direita. E mais: existe até uma direita da direita, ocupada por Marine le Pen. Por outro lado, Hollande é visto como um socialista, um homem de esquerda, que tem também forças ainda mais à esquerda do que as que ele representa. O espectro político voltou a se expandir da extrema-direita à extrema-esquerda.
Tarefa a fazer Na realidade, a recuperação do vocabulário político é apenas uma operação de linguagem. A separação entre as duas formas de se ver e agir no mundo nunca deixou de ter sentido. O que houve foi a constatação de que a anulação do outro lado (no caso a esquerda) não significou a incorporação de suas perspectivas pelo lado que se considerava “vencedor”. A direita, ao se identificar com o livre mercado e com a liberdade de opinião (a imprensa como fiadora), confundiu as diversas acepções da palavra liberdade, manipulando-a a seu gosto, mas com consequências inevitáveis. A direita fez o serviço sujo do grande capital, da xenofobia, do ódio racial, da destruição do Estado de bem-estar, da perseguição à diferença, da destruição das estratégias amplas de solidariedade social. Só se esqueceu que toda política de atendimento a minorias um dia passa a ameaçar sua própria base.
Nem o Primeiro Mundo consegue ser todo ele Primeiro Mundo sob os ditames da concentração de renda e fratura de direitos. Logo se viram desempregados, sem defesa social, sem perspectivas de crescimento e distribuição de renda, sem paz para viver em comunidade. O que a direita fez foi ressuscitar a esquerda ou seu ideário, que foi sendo corrompido sob o véu da pura ideologia nas últimas décadas. Houve tempo em que os europeus não queriam saber de pleno emprego ou legislação social. Hoje protestam no Dia do Trabalho exigindo trabalho, numa cena digna do Terceiro Mundo, chutando símbolos do capitalismo e fazendo passeatas. A ideologia da desnacionalização da mão de obra e da substituição da riqueza pelo dinheiro gerou uma crise que reverteu as bandeiras.
A eleição na França está mostrando a face mais dura da direita. Durante muito tempo bastava usar significantes típicos do capitalismo avançado, como desregulamentação, para conseguir na base de sustentação o apoio para políticas de precarização do trabalho. Além disso, como não há solidariedade nesse nível, os países mais ricos se viram enredados em crises de seus vizinhos, o que deixava instável tanto a base financeira quanto a social. De uma hora para outra, os imigrantes não eram apenas os árabes e africanos, já suficientemente demonizados, mas seus próprios vizinhos. Sarkozy, que é filho de imigrantes e casado com uma italiana, agora precisa odiar seus irmãos para angariar votos da parcela mais irada do eleitorado.
Com todo esse movimento, esquerda e direita passaram de novo a ser conceitos operativos. Em sua raiz, cada uma das posições se fundamenta num princípio filosófico. A direita tem como base a ideia de liberdade, que começa na sociedade, ganha espaço na economia e se traduz na política. A esquerda parte da noção de igualdade, que começa na antropologia, cresce na convivência política e precisa ser traduzida nas relações econômicas solidárias e inclusivas. A direita é uma teoria política que se nutre no egoísmo e na possessividade do indivíduo; a esquerda é uma prática política que busca a solidariedade numa relação de convivência entre iguais. Por muito tempo se pensou que a direita era boa para produzir e a esquerda era melhor em distribuição. Hoje essa equação não funciona mais.
A vitória da direita, hoje, não pode mais se esconder no moralismo e na pretensa eficiência. Ela se denuncia como anti-humanista e incapaz de cumprir as exigência sociais da maioria da sociedade, mesmo de uma sociedade rica e orgulhosa como a francesa. As pessoas estão tendo um aprendizado duro da igualdade: quando falta algo para todos. A França deu lições ao mundo no século 18, propondo liberdade, igualdade e fraternidade. A hora é da igualdade. Sem ela, não há fraternidade possível no horizonte.
João Paulo, Estado de Minas, 05/05/2012
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