Antes da Grande Recessão, eu costumava fazer palestras sobre a crescente desigualdade nos EUA, enfatizando que a concentração de renda no topo da sociedade havia atingido níveis não vistos desde 1929. Muitas vezes, alguém me perguntava se isso queria dizer que uma nova depressão estava a caminho. Não é que a pergunta fazia sentido? Será que a ascensão do 1%, ou melhor, do 0,01% causou a Pequena Depressão que vivemos? É provável que tenha contribuído. Mas o principal aspecto é que a desigualdade é um dos grandes motivos para que a economia esteja tão deprimida, e o desemprego, tão alto. O melhor modo de explicar é o seguinte: se algo parecido com a crise financeira de 2008 tivesse ocorrido, digamos, em 1971 -ano em que Richard Nixon declarou que "agora minha política econômica é keynesiana"-, Washington provavelmente teria respondido de modo razoavelmente efetivo. Teria surgido consenso bipartidário amplo em favor de medidas fortes, e teria existido acordo generalizado sobre o tipo de ação necessária.
As disputas econômicas costumavam ser delimitadas por um entendimento compartilhado sobre a política econômica. Agora, o Partido Republicano está sob o domínio de doutrinas que no passado eram marginais e que fracassaram estrondosamente na prática. Por exemplo, os defensores do padrão ouro entre os conservadores preveem há três anos uma disparada na inflação e nos juros, e erraram. E por que os republicanos se apegam tanto a essas doutrinas? Parte da explicação está em que bilionários sempre as adoraram, pois dão justificativa para políticas que servem aos seus interesses. O apoio de bilionários sempre foi o principal motivo para que os charlatões e picaretas continuassem em circulação. E agora eles conquistaram o controle de todo um partido.
O que nos conduz à questão do que será necessário para liquidar a depressão em que estamos. Muitos sabichões asseguram que a economia dos EUA tem problemas estruturais e que isso impede recuperação rápida. Mas todas as provas indicam que o problema é uma simples falta de demanda, que poderia ser curada por meio de medidas de estímulo fiscal e monetário. Não, o verdadeiro problema estrutural está no sistema político, que foi distorcido e paralisado pelo poder de uma minoria rica. E a chave para a recuperação econômica está em descobrir como eliminar a influência maligna dessa minoria.
Paul
Krugman, Folha de São Paulo, 05/05/2012
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