Sentado
numa cadeira de plástico ao pé de uma cama modesta na cela 5 da prisão federal
situada no Campo de Maio, o ex-general Jorge Rafael Videla explicou com
detalhes como foram tomadas as decisões sobre os detidos durante os anos da
ditadura (1976-1983), como foram confeccionadas as listas de pessoas que deviam
ser presas e em que consistiu o método da “Disposição Final”, nome adotado
pelas Forças Armadas para indicar a forma em que se decidiu o destino de
milhares de prisioneiros. Sem arrependimento ou autocrítica, mas confessando
pela primeira vez sentir “um incômodo”, “um peso na alma”, o homem forte da
ditadura explicou cruamente como os militares analisavam a situação daquele
momento. “Digamos que eram sete ou oito mil as pessoas que deviam morrer para
ganharmos a guerra contra a subversão; não podíamos fuzilá-las. Tampouco
podíamos levá-las à Justiça.”
Sobre a
“Disposição Final”: “São duas palavras muito militares e significam tirar de
serviço uma coisa que se torna inservível. Quando, por exemplo, se fala de uma
roupa que já não se usa ou não serve porque está gasta, passa-se à Disposição
Final. Já não tem vida útil.” O método incluiu essas etapas: A detenção ou o sequestro
de milhares de “líderes sociais” e “subversivos”, segundo listas que “foram
elaboradas em janeiro e fevereiro de 1976, antes do golpe, com a colaboração de
empresários, sindicalistas, professores e dirigentes políticos estudantis”.
Os interrogatórios em lugares secretosou clandestinos. A morte dos detentos considerados “irrecuperáveis”, geralmente em reuniões específicas encabeçadas pelo chefe de cada uma das cinco zonas em que o país foi dividido. O desaparecimento dos corpos, que eram jogados ao mar, num rio, num riacho ou num dique; ou enterrados em lugares secretos, ou queimados num forno constituído por uma pira de pneus de automóveis. Naqueles anos de chumbo, os chefes militares tinham chegado à conclusão que não podiam levar os detidos à Justiça: recordavam que os processados e condenados por “atos subversivos” durante o governo do general Alejandro Lanusse foram liberados como heróis após a assunção do presidente peronista Héctor Cámpora, em 25 de maio de 1973, à noite.
Os interrogatórios em lugares secretosou clandestinos. A morte dos detentos considerados “irrecuperáveis”, geralmente em reuniões específicas encabeçadas pelo chefe de cada uma das cinco zonas em que o país foi dividido. O desaparecimento dos corpos, que eram jogados ao mar, num rio, num riacho ou num dique; ou enterrados em lugares secretos, ou queimados num forno constituído por uma pira de pneus de automóveis. Naqueles anos de chumbo, os chefes militares tinham chegado à conclusão que não podiam levar os detidos à Justiça: recordavam que os processados e condenados por “atos subversivos” durante o governo do general Alejandro Lanusse foram liberados como heróis após a assunção do presidente peronista Héctor Cámpora, em 25 de maio de 1973, à noite.
“Tampouco
podíamos fuzilá-las. Como fuzilaríamos tanta gente? A Justiça espanhola havia
condenado à morte três membros do ETA, uma decisão que Franco confirmou apesar
dos protestos de boa parte do mundo: só pôde executar o primeiro, e isso porque
era Franco. Também havia o ressentimento mundial que provocara a repressão de
(Augusto) Pinochet no Chile”, afirmou Videla.
Perguntas
me perseguiam há anos, como seguramente a tantos argentinos: quando, como, onde
e por que os militares tomaram a decisão de matar e fazer desaparecer essas
pessoas? Por que não as enviaram a um juiz ou as fuzilaram? Por que pensaram
que semelhante ausência seria esquecida? Por que as detiveram em lugares
secretos? Como justificavam a tortura? Qual foi a influência da chamada
“Doutrina Francesa”? Estão arrependidos? Foi uma decisão unânime da cúpula das
Forças Armadas? Qual era o papel de Videla? Existem listas dessas vítimas? Onde
estão seus restos? Como os militares, entre eles, se referiam a essa situação?
Podiam os militares de menor graduação desobedecer a essas ordens? Houve quem
lhes desobedecesse? Quem, como, quando e onde decidiam a Disposição Final de
cada um dos detidos? Houve um plano sistemático para roubar os filhos dos
detidos e entregá-los a famílias que lhes mudaram a identidade? Se não houve,
por que foram tantas as crianças apropriadas por famílias ligadas ao regime
militar?
O
ex-ditador continua pensando que “não havia outra solução. Estávamos de acordo
em que era o preço a pagar para ganhar a guerra e necessitávamos que não fosse
evidente para que a sociedade não soubesse. Por isso, para não provocar
protestos dentro e fora do país, chegou-se à decisão de que essa gente deveria
desaparecer; cada desaparecimento pode ser entendido certamente como a
dissimulação de uma morte”.
Videla esclarece
uma pergunta que o kirchnerismo utiliza cada vez que tem necessidade: onde
estavam os que agora nos criticam quando os militares matavam e faziam
desaparecer nossos companheiros? Como se Néstor e Cristina Kirchner tivessem se
destacado por sua luta a favor dos direitos humanos durante o governo militar.
O governo aproveita essa “má coincidência” de tantos, mas Videla revela que,
precisamente, o objetivo da “Disposição Final” foi impedir que o povo soubesse
o que estava se passando.
Videla
estabelece uma continuidade entre a repressão ilegal do processo com o governo
constitucional do peronismo, mais precisamente com os decretos firmados pelo
presidente interino Ítalo Luder, em 6 de outubro de 1975. “Os desaparecimentos
se dão em seguida aos decretos de Luder, que nos deram licença para matar. Do
ponto de vista estritamente militar, não necessitávamos do golpe; foi um erro
porque ele tirou legitimidade democrática da guerra contra a subversão.”
Foram nove
entrevistas que somaram 20 horas entre outubro do ano passado e março de 2012,
nas quais Videla respondeu a todas as perguntas sobre a ditadura que chefiou
durante cinco anos, entre 1976 e 1981, quando foi substituído por seu amigo e
aliado, o general Roberto Viola. O tema principal? Os milhares de desaparecidos,
a ferida mais profunda causada por seu governo. Mas não foi o único tema: o
livro “Disposição Final” explica a ditadura por dentro a partir de entrevistas
com Videla, mas também com outros militares e ex-militares, políticos,
sindicalistas e funcionários. E suas relações com empresários, EUA, URSS,
imprensa, peronismo, radicalismo e PartidoComunista, entre outros fatores.
Como
sustentou o semiólogo, filósofo e historiador búlgaro-francês Tzvetan Todorov
em recente artigo no diário “El País”, “se quisermos compreender os desastres
passados, condição prévia indispensável para qualquer tentativa de impedir que
se repitam, o que devemos fazer é ir aos que cometeram esses atos”. E colocar
esses fatos em seu contexto histórico porque, segundo dizia Karl Marx, “os
homens fazem sua própria história, não por seu livre arbítrio, mas sob aquelas
circunstâncias em que se encontram diretamente, que existem e lhes foram
legadas pelo passado”.
Ceferino
Reato, O Globo, 03/05/2012
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