A professora Susan Buck-Morss explodiu a primeira
bomba filosófica do milênio ao aproximar do filósofo alemão Hegel a Revolução
Haitiana, que levou os ex-escravos daquela colônia a conquistarem a
independência da França em 1.º de janeiro de 1804. No verão do ano 2000 ela
publicou na revista Critical Inquiry Hegel and Haiti, ensaio explosivo que,
acrescido de apêndices, seria retomado em livro, Hegel, Haiti, and Universal
History (University of Pittsburgh, 2009). O ensaio inaugural saiu publicado na
revista Novos Estudos (n. 90, julho 2011), em cuidadosa tradução de Sebastião
Nascimento. A combinação não é apenas inesperada. Abre divergências. O
desenrolar dos acontecimentos políticos liderados pelo ex-escravo Jean-Jacques
Dessalines teria sido acompanhado por Hegel nas páginas da revista alemã
Minerva, conformada aos ideais sociais da franco-maçonaria radical, e estaria
por detrás - seria a principal fonte - da célebre passagem da Fenomenologia do
Espírito (escrita entre 1805 e 1806 e publicada em 1807), onde se enuncia a
dialética do senhor e do escravo.
Ao deixar aflorar o silêncio dos especialistas no tocante à aproximação, cuja evidência é demonstrada no ensaio, Susan assassina três princípios que norteiam o estudo de fontes na universidade e nos estudos hegelianos, para demonstrar como a lenta construção de um objeto de pesquisa pode tanto iluminá-lo quanto escondê-lo. Depende. A primeira bala de Susan vai de encontro aos discursos disciplinares sobre o conhecimento: "Hoje em dia, quando a revolução dos escravos haitianos pode parecer mais pensável, ela é mais invisível, devido à construção dos discursos disciplinares, por meio dos quais herdamos o conhecimento sobre o passado." Como momento definidor da história universal, a Revolução Haitiana "se assenta numa encruzilhada de múltiplos discursos disciplinares", que só serão destrinchados por metodologia pluridisciplinar. Acrescenta: "Fronteiras disciplinares fazem com que as evidências contrárias virem problemas dos outros."
Escritos na fronteira entre ciência política e filosofia, os ensaios de Susan trazem uma concepção de história universal cujo voo é impulsionado mais pelo método e menos pelo conteúdo. Trata-se de buscar orientação política, de chegar a uma reflexão filosófica alicerçada em material concreto, cujo ordenamento conceitual lança luz sobre a atualidade. Como filosofia política, a história salvaguarda a intenção universal da modernidade ocidental no ato paradoxal de descentrar o seu legado. Hegel comunga com Jacques Derrida. Ela não conclama a uma pluralidade de modernidades alternativas. "A verdade não muda; nós é que mudamos."
A segunda bala assassina atinge os leitores de Hegel que não percebem que "até mesmo os termos mais abstratos do vocabulário conceitual do filósofo são derivados da sua experiência cotidiana" e - Susan acrescentará páginas adiante - da leitura de jornais e de revistas. A seu favor, Susan reporta-se ao momento em que Hegel abandona as categorias de "burguês" e de "civil", aplicadas à sociedade, para endossar, a partir da análise de Adam Smith sobre a fabricação de alfinetes, uma visão comprometida com a nova economia - "necessidade e trabalho é que criam um sistema monstruoso de dependência mútua". Fatos, afirma Susan, não são importantes como informação de significados fixos, abrem caminhos que continuam a surpreender-nos. Fatos devem inspirar a imaginação e não acorrentá-la ao chão.
A terceira bala assassina vai de encontro aos marxistas que propõem uma apropriação social da dialética hegeliana. A metáfora senhor/escravo perdia a referência literal e passava a recobrir a luta de classes. Não está em questão o brilho das análises de Geörg Lukács, Herbert Marcuse ou Alexandre Kojève, esclarece Susan. E se explica: "O problema é que, dentre todos os leitores, os marxistas (brancos) foram os menos propensos a considerar a escravidão real como algo significante, uma vez que, em sua concepção etapista da história, a escravidão - não importando quão contemporânea - era vista como uma instituição pré-moderna, banida da história e relegada ao passado." Conclui: "Há um elemento de racismo implícito no marxismo oficial, ao menos por conta da história como uma progressão teleológica."
O elemento implícito torna-se explícito na recusa dos marxistas (brancos) em aceitar a tese também de inspiração marxista do historiador jamaicano Eric Williams, expressa em Capitalismo e Escravidão, livro publicado em 1944 e traduzido em 2012 pela Companhia das Letras: "A escravidão do sistema plantation é uma instituição quintessencialmente moderna de exploração capitalista."
Apesar de esclarecer as possíveis relações entre os redatores da revista alemã Minerva e os francos-maçons, apesar de conduzir com habilidade as leituras latentes nos escritos de Hegel que indiciam seu conhecimento da bibliografia, Susan alerta para o fato de que "sabemos muito pouco sobre a maçonaria no Atlântico negro/pardo/branco, um capítulo de relevo na história da hibridez e da transculturação". Reabrem-se as portas da pesquisa.
Silviano Santiago, O Estado de São Paulo, 07/07/2012

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