É de 99,99995% ("cinco
sigmas") a probabilidade de que cientistas tenham detectado o bóson de
Higgs -também conhecido como "partícula de Deus"- ou pelo menos algo
muito parecido com ele. Se confirmada, é a mais importante observação no campo
da física de partículas dos últimos 40 anos. Escarafunchando suas propriedades,
cientistas creem que poderão vislumbrar fenômenos desconhecidos e propor novas
teorias, avançando para além do Modelo Padrão, às vezes chamado de "teoria
de quase tudo", já que explica quase tudo que existe no Universo: matéria,
energia e suas principais interações. As notáveis exceções são certos aspectos
da gravidade e a energia escura. O interessante na provável descoberta do bóson
de Higgs é que ela consagra não só o Modelo Padrão como também o método
científico. Durante cinco décadas, essa partícula existiu apenas como previsão
do modelo teórico, sem nenhuma corroboração empírica.
Baseava-se em alguma matemática e
muita fé dos cientistas na correção do Modelo Padrão em suas linhas gerais. A
partícula de Deus, exceto por detalhes de forma lógico-matemática, era
indistinguível de uma peça de literatura fantástica ou de um juízo religioso. O
problema é que o ser humano é uma espécie excessivamente criativa. Experimentos
neurológicos mostram que, quando fatos desconexos são apresentados, o cérebro
tende a uni-los por meio de narrativas. Elas não têm de ser verossímeis nem
coerentes. Embarcamos nelas porque essa é a forma pela qual pensamos.
A moral da história é que devemos nos acautelar contra nossas ideias. Aí entra o método científico. Ele as mantêm sob eterna suspeita. Nada é mais que uma hipótese até que tenha sido corroborado por evidências empíricas. E, mesmo depois, torna-se no máximo uma verdade provisória, sujeita a ser falseada a qualquer instante. Ao menos em teoria, o método científico é o oposto do dogma.
Helio Schwartzman, Folha de São
Paulo, 06/07/2012
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