Assim como eu, muitos leitores devem ter ficado
estarrecidos ao tomarem conhecimento, na coluna Panorama Político na edição do
Globo do último dia 12, das músicas cantadas na véspera por soldados do I
Batalhão da Polícia do Exército em exercício pelas ruas da Tijuca. "Bate,
espanca. Quebra os ossos. Bate até morrer", berravam os soldados, marcando
as passadas. O instrutor retrucava: "E a cabeça?". "Arranca a
cabeça e joga no mar", gritavam os soldados. Por fim, o instrutor
perguntava: "E quem faz isso?" E os soldados respondiam: "É o
esquadrão caveira." Naquele quartel funcionou, na década de 70, o
famigerado DOI-Codi, o principal palco de torturas e assassinatos de presos
políticos no estado. Pelo visto, sua filosofia permanece em vigor. E, mais do
que o desequilíbrio de um tenente ou sargento instrutor, o episódio revela
coisa pior. Não se procedeu à extirpação das heranças da ditadura, pois que no
Brasil não houve uma Justiça de Transição, como em outros países do Cone Sul.
Sequer os arquivos dos órgãos militares que participaram da repressão política
ou decretos secretos do regime militar são conhecidos - mais de 25 anos depois
do fim da ditadura.
No Brasil de hoje, os militares já não estão no
primeiro plano da política, mas, dos bastidores, ainda se reservam o direito da
última palavra em questões que lhes digam respeito diretamente, como a formação
de quadros nas Forças Armadas. Tudo funciona como se, na democracia em que
vivemos, os militares não se imiscuíssem diretamente na política, mas tivessem
salvo-conduto para fazer nas Forças Armadas o que bem desejam. A herança da
ditadura e a influência dos militares em terrenos que não deveriam dizer-lhes
respeito se fazem notar também em outros lugares do aparelho do Estado -
veja-se, por exemplo, a decisão do Supremo Tribunal Federal, que estendeu os
benefícios da Lei da Anistia a torturadores e assassinos de presos.
Tal situação não é aceitável na democracia. As Forças
Armadas são uma instituição nacional, devendo servir para defender o país
contra agressões externas; e, no plano interno, garantir a ordem democrática e
o estado de direito. Daí que a formação de seus integrantes deve prepará-los para
essas funções e, também, para algo inseparável delas: o respeito aos direitos
humanos.
Mesmo numa guerra, não é aceitável que militares "espanquem o inimigo até que este morra", ou que "cortem sua cabeça e a joguem no mar", como reza a música cantada pelos soldados da PE. Afinal, também os conflitos armados têm seus códigos e regras. Educar os militares com base em tais concepções significa prepará-los para o desrespeito às convenções que regem as guerras. E - ainda pior - para o desrespeito aos direitos humanos, mesmo em períodos de paz. Por isso, a formação dos militares deve ser assunto da sociedade como um todo, e não monopólio de viúvas de uma era tenebrosa que os brasileiros não querem mais de volta. É preciso reformar e adequar as Forças Armadas à democracia.
Mesmo numa guerra, não é aceitável que militares "espanquem o inimigo até que este morra", ou que "cortem sua cabeça e a joguem no mar", como reza a música cantada pelos soldados da PE. Afinal, também os conflitos armados têm seus códigos e regras. Educar os militares com base em tais concepções significa prepará-los para o desrespeito às convenções que regem as guerras. E - ainda pior - para o desrespeito aos direitos humanos, mesmo em períodos de paz. Por isso, a formação dos militares deve ser assunto da sociedade como um todo, e não monopólio de viúvas de uma era tenebrosa que os brasileiros não querem mais de volta. É preciso reformar e adequar as Forças Armadas à democracia.
Wadih Damous, O Globo, 19/07/2012
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