Uma evolução democrática do Egito deflagraria uma segunda etapa da Primavera Árabe
O Egito tem, hoje, dois poderes. O presidente
Mohammed Mursi, eleito pelo povo, representa a democracia, que é o poder novo.
A cúpula das Forças Armadas, que dissolveu o Congresso e avoca para si prerrogativas
legislativas e constituintes, representa o estamento militar, que é o poder
velho. O confronto inevitável entre os poderes rivais moldará a evolução
política do país. Como Mursi emanou da Irmandade Muçulmana, o confronto também
deixará marcas profundas no mais antigo e influente partido islâmico do mundo
árabe. De certo modo, no Egito se esculpe o futuro da Primavera Árabe. A
Irmandade Muçulmana e o estamento militar são os atores centrais da História do
Egito moderno. A Revolução Nacional de 1952, conduzida por Gamal Abdel Nasser e
seu grupo de oficiais militares, fundou um Estado nacionalista, pan-arabista e
modernizante. O partido islâmico, criado em 1928, apoiou a revolução, mas logo
se afastou de Nasser, que enxergava no Islã político um desafio à unidade do
poder revolucionário.
O conflito alcançou o ápice em 1964, quando Sayyd
Qutb, líder da ala radical dos Irmãos, foi preso e executado sob falsa
acusação. Os seguidores de Qutb exilaram-se, então, na Arábia Saudita,
iniciando um longo intercâmbio ideológico com os teólogos da seita
fundamentalista Wahab. Duas décadas mais tarde, desse caldo de cultura
emergiria, no campo da jihad afegã, a organização terrorista Al-Qaeda. De
Nasser a Anuar Sadat, e daí a Hosni Mubarak, a revolução degenerou em ditadura
militar corrupta e burocrática, enquanto a Irmandade, proscrita, se libertava
da sombra de Qutb e se reformava lentamente. O levante popular do início de
2011 não decorreu de um chamado do partido islâmico, mas seguiu consignas
laicas e democráticas. Na hora das eleições, porém, a força social dos Irmãos
relegou as demais correntes oposicionistas a papéis secundários. O segundo
turno da eleição presidencial foi um embate entre o partido islâmico e o
estamento militar.
O novo presidente expressa, ao mesmo tempo, a raiz
fundamentalista dos Irmãos e a vontade popular canalizada nas urnas. Mursi dá
sinais de saber distinguir uma da outra, e dá prioridade à segunda sobre a
primeira: vitorioso, anunciou sua desfiliação do partido islâmico e convidou figuras
da oposição democrática a integrar o governo. A derrubada do antigo ditador,
nas manifestações populares da Praça Tahir, foi apenas o primeiro ato de uma
complexa transição política.
Durante a "era Mubarak", que durou três décadas, a cúpula das Forças Armadas assumiu o comando de empresas estatais monopolistas, convertendo-se numa "burguesia de Estado". Os chefes militares pretendem conservar os privilégios herdados moldando uma democracia de fachada e reservando a si mesmos as prerrogativas de um "poder moderador". Realista, a Irmandade Muçulmana tece compromissos táticos com a Junta Militar que, às vezes, enfurecem as lideranças laicas da Primavera Egípcia, mas revela uma clara consciência de que a difusão de sua própria influência depende da extensão da democracia - e, portanto, da progressiva subordinação das Forças Armadas ao poder civil.
Durante a "era Mubarak", que durou três décadas, a cúpula das Forças Armadas assumiu o comando de empresas estatais monopolistas, convertendo-se numa "burguesia de Estado". Os chefes militares pretendem conservar os privilégios herdados moldando uma democracia de fachada e reservando a si mesmos as prerrogativas de um "poder moderador". Realista, a Irmandade Muçulmana tece compromissos táticos com a Junta Militar que, às vezes, enfurecem as lideranças laicas da Primavera Egípcia, mas revela uma clara consciência de que a difusão de sua própria influência depende da extensão da democracia - e, portanto, da progressiva subordinação das Forças Armadas ao poder civil.
Inspirados pela tese do "choque de
civilizações", analistas ocidentais observam com pessimismo o
desenvolvimento do drama egípcio. O mundo do Islã não se preparou
historicamente para a democracia, dizem eles, e o triunfo eleitoral do partido
fundamentalista seria a prova de que tudo se resumirá à substituição de uma
ditadura militar pró-ocidental por uma ditadura teocrática hostil aos Estados
Unidos, à Europa e, sobretudo, a Israel. As proclamações democráticas da
Irmandade Muçulmana não passariam de um ardil destinado a iludir os incautos,
na etapa intermediária da transição de poder. O Irã dos aiatolás, que também
emanou da queda de um regime ligado ao Ocidente, prefiguraria o futuro do
Egito.
Ninguém conhece o futuro - e, obviamente, uma
revolução é sempre um enigma. Imaginar, contudo, que Mursi não seja mais que a
máscara circunstancial de um Qutb eterno corresponde a um exercício radical de
negação da História. Os Irmãos renunciaram ao terror há mais de quatro décadas
e tentam, nem sempre com sucesso, moderar os impulsos do palestino Hamas, que
nasceu de sua costela. Eles denunciaram a cooperação de Sadat e Mubarak com
Israel, porém admitem uma solução de dois Estados na Palestina. Continuam a
dizer que o Corão deve formar a base da vida egípcia, mas se declaram
comprometidos com os princípios do pluralismo político e da liberdade de
religião. Tudo isso forma um conjunto doutrinário incoerente, pleno de tensão, pontilhado
por contradições. A História é assim mesmo: não cabe no molde das narrativas
cartesianas.
Bernard Lewis, o autor original da tese do
"choque de civilizações", sugeriu que a Turquia aponta o caminho da
salvação do mundo muçulmano. Seu modelo era o regime de Mustafá Kemal Ataturk,
fundador da República laica e autoritária, assentada sobre o "poder
moderador" dos militares, que substituiu o Império Turco-Otomano. No
fundo, ele queria dizer que o Islã se redimiria pela negação radical do Islã.
A História pregou uma peça em Lewis: a Turquia libertou-se há pouco do autoritarismo, sob o governo de um partido islâmico reformado que cortou suas próprias raízes fundamentalistas. A jovem democracia turca ainda não está isenta de tentações repressivas, mas evidencia que o Islã não é incompatível com as liberdades políticas. A Turquia atual, não o Irã dos aiatolás, parece ser a fonte de inspiração para o Egito de Mursi - e da Praça Tahir.
Uma evolução democrática do Egito deflagraria uma
segunda etapa da Primavera Árabe. Nessa hipótese, a chave egípcia abriria os
cadeados que prendem o mundo árabe no alçapão do fundamentalismo religioso.
Demétrio Magnoli, O Estado de São Paulo, 19/07/2012
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