Há várias maneiras de esconder um elefante. Uma delas é apresentando
suas partes em separado. Em um dia, aparece a pata. No dia seguinte, você
mostra a tromba. Passa um tempo e vem a cauda. No fim, não se mostra o
elefante, mas uma sequência de partes desconectadas. Desde o início, o mensalão
foi apresentado pela grande maioria dos veículos da imprensa nacional dessa
maneira. Vários se deleitaram em mostrá-lo como um caso de corrupção que
deixaria evidente a maneira com que o PT, até então paladino da ética, havia
assegurado maioria parlamentar na base da compra de votos e da corrupção. No entanto
o mensalão era muito mais do que isso. Na verdade, ele mostrava como a
democracia brasileira só funcionava com uma grande parte de seus processos
ocultados pelas sombras. O jogo ilícito de financiamento de campanha e de uso
das benesses do Estado deixava evidente como nossa democracia caminhava para
ser uma plutocracia, independentemente dos partidos no poder.
Ou seja, a partir do mensalão, ficou claro como o Brasil era um país no qual a característica fundamental dos escândalos de corrupção é envolver todos os grandes partidos.
Mas, em vez de essa situação nos mobilizar para exigir mudanças
estruturais na política brasileira (como financiamento público de campanha,
reformas que permitissem ao partido vencedor constituir mais facilmente maiorias
no Congresso, proibição de contratos do Estado com agências de publicidade
etc.), ela serve atualmente apenas para simpatizantes de um partido jogar nas
costas do outro a conta do "maior caso de corrupção do pais".
No entanto essa conta deve ser paga por mais gente do que os réus
arrolados no caso do mensalão. O STF teria feito um serviço ao Brasil se
colocasse os acusados do PT e do PSDB na mesma barra do tribunal. Que fossem
todos juntos!Desta forma, o povo brasileiro poderia ver o elefante inteiro. Com
o elefante, o verdadeiro problema apareceria e a indignação com a corrupção,
enfim, teria alguma utilidade concreta.
Vladimir Safatle, Folha de São Paulo, 07/08/2012
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