Mas que julgamento
seria esse, se todos já foram condenados? Os
grandes grupos de mídia brasileiros não se prepararam para a cobertura do
julgamento do mensalão. Sua parafernália foi montada com outro intuito:
noticiar o dia a dia de uma condenação. Se não de todos os 38 réus, pelo menos
das principais figuras do PT e de outros partidos que foram acusadas. Com
alguns dos personagens de fora da política que se tornaram simbólicos dos
eventos que suscitaram as denúncias. A
“grande imprensa” faz plantão na porta do Supremo Tribunal Federal (STF)
aguardando a condenação. O julgamento é um detalhe, uma burocracia que só
retarda o desfecho que ela espera – e deseja. A
rigor, ela não demonstra interesse pelo que vai acontecer no STF, de agora até
que o último réu seja julgado. Parece achar que a história do mensalão já foi
escrita. É irrelevante se o
jornalista ou seu empregador estão convencidos da culpa de alguém. Até porque a
última preocupação que têm é com a Justiça. Suas convicções políticas, suas
antipatias e simpatias impedem a isenção exigida para julgar.
O mesmo vale para a atuação do Ministério Público. Excessos saudáveis de alguns de seus integrantes ajudaram no amadurecimento de nossas instituições, ainda debilitadas pelo autoritarismo. Promotores “incômodos” são mais úteis à sociedade que os “bonzinhos”. De novo, isso é incompatível com a função de julgar. “Carregar nas tintas” de uma denúncia é permissível, e, por isso mesmo, alguém tem que evitar que se convertam, automaticamente, em punição. O julgamento do mensalão não é o endosso dos ministros do STF ao que a “grande imprensa” diz nem tampouco o referendo da denúncia apresentada pelo procurador-geral. É o momento em que a acusação deixa de ser unilateral e a defesa – tão legítima quanto ela – é ouvida.
Dele, ninguém deve sair condenado sem prova irrefutável de culpa. Nossa “grande imprensa” se colocou em uma posição delicada. De tanto apostar na condenação – seja por estar convencida da excelência de sua investigação, seja para golpear o “lulopetismo”–, ficou sem saída. Ou o STF faz o que ela quer ou está obrigado a repudiar seu pronunciamento. Caso não venham as penas, como ela se explicará a seus leitores e à opinião pública? Reconhecerá que se excedeu, que atacou sem provas, que destruiu imagens e reputações irresponsavelmente? Ou vai insistir que estava certa e errado é o julgamento do Supremo? Que, portanto, os cidadãos brasileiros não podem confiar na Justiça? Para ela, só pode haver um desfecho: a condenação. Mas que julgamento seria esse, se todos já foram condenados? O que a “grande imprensa” brasileira menos quer é que o Supremo julgue. Ela já fez isso. E não admite a revisão de seu veredicto.
Marcos Coimbra, Estado de Minas, 05/08/2012
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