Historiadora descobre papiro com referência a esposa de Cristo
A
divulgação de um suposto papiro copta que menciona a "mulher de
Jesus" pôs mais uma vez o mundo a debater se Cristo era ou não casado. Não
tenho nada contra essa discussão, mas há uma outra, anterior, que quase nunca é
lembrada: Jesus, de fato, existiu? É certo que, como ideia, ele é real. Em seu
nome edificaram não uma, mas centenas de igrejas. Por isso mesmo é interessante
saber se à figura mítica corresponde um personagem histórico de carne e osso. O
que salta à vista aqui é a notável ausência de documentação contemporânea aos
supostos fatos. Há quase que apenas os Evangelhos, que tinham muito mais o
objetivo de propagar a nova religião do que de registrar eventos. Para piorar,
o mais antigo dos Evangelhos canônicos, o de Marcos, foi escrito ao menos 40
anos após a alegada crucificação, o que significa que não pode ser considerado
uma fonte primária. Os evangelistas escreveram o que ouviram dizer, não o que
testemunharam.
Há ainda umas poucas e rápidas menções a Jesus em autores não cristãos, como Flávio Josefo, Plínio, Tácito e Suetônio. Mas eles estão ainda mais longe dos fatos do que os evangelistas, e historiadores acreditam que essas referências podem ter sido introduzidas por copistas. É claro que ausência de evidências não é evidência de ausência. Um Jesus histórico poderia perfeitamente ter existido mesmo que sua odisseia não tivesse sido capturada pela, em geral eficaz, burocracia romana.
Karen Armstrong, no excelente "Em Defesa de Deus", mostra que, muito mais do que o ateísmo ou o darwinismo, o que incomodou os religiosos do fim do século 19 e início do 20 foi o advento da alta crítica, um ramo da teologia que estudava a Bíblia e a vida de Cristo não como milagres, mas como fenômenos literários e históricos. Para Armstrong, o fundamentalismo cristão surgiu exatamente como uma reação a essa dessacralização das Escrituras.
Helio Schwartsman,
Folha de São Paulo, 21/09/2012
Divulgação de fragmento de texto antigo com menção a "mulher de Jesus" causa controvérsia entre estudiosos; para alguns, há risco de que o manuscrito seja uma fraude
O papiro do século 4º d.C. que contém uma referência à suposta "mulher de Jesus", revelado ontem, já está causando um movimentado debate entre os especialistas, como era de se esperar. Apresentado ontem em Roma, numa reunião de estudiosos da língua copta (idioma extinto do Egito no qual o fragmento de texto está escrito), o papiro deixou dúvidas sobre sua autenticidade. "Eu diria que é uma fraude. A caligrafia não parece autêntica", declarou Alin Siciu, papirologista da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, à agência de notícias Associated Press.
Especialistas também questionaram a espessura da tinta (parece que as letras foram reforçadas repetidas vezes) e o aspecto excessivamente "limpo" do papiro. Ninguém pôs em dúvida, no entanto, a integridade da historiadora Karen King, da Universidade Harvard, responsável por trazer a público o texto depois de tê-lo recebido das mãos de um colecionador particular, que não quer ser identificado. King decidiu publicar o fragmento depois que dois outros especialistas em papiros antigos consideraram que o fragmento provavelmente era verdadeiro. "É difícil ter certeza sobre a autenticidade agora, mas ela tem excelente reputação e foi muito cuidadosa", disse à Folha André Chevitarese, especialista em cristianismo antigo do Instituto de História da UFRJ e do Departamento de História da Unicamp.
A pesquisadora de Harvard diz que pretende submeter a tinta do fragmento a análises químicas capazes de determinar a sua idade. O grande consenso entre os especialistas, no entanto, é que o texto, se for autêntico, não diz respeito ao Jesus histórico, por ter sido escrito muito depois da morte de Cristo, "provavelmente no século 3º", diz Chevitarese -a data da composição inicial seria anterior à da cópia preservada parcialmente. "Na literatura posterior ao primeiro século da Era Cristã, florescem as mais aberrantes interpretações de Jesus, especialmente nos aspectos em torno dos quais não há dados claros nos livros canônicos [os da Bíblia]", explica Flávio Schmitt, professor da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS).
A grande diversidade de visões teológicas nas comunidades cristãs dessa época significa que, enquanto algumas defendiam a supremacia dos homens e o celibato, outras incluíam a participação feminina -e o modelo disso podia ser a proximidade entre Jesus e Maria Madalena. Para Chevitarese, na raiz dessa ideia estava o papel importante das mulheres no ministério original de Jesus, embora não haja evidências de que ele tivesse uma esposa. A CNBB e a Arquidiocese de São Paulo foram procuradas para comentar o tema, mas não se pronunciaram.
Historiadora descobre papiro escrito na antiga língua cóptica com
referência a esposa de Cristo. Para cientista, o documento mostra que cristãos
acreditavam que Jesus foi casado
Um pequeno pedaço de papiro, de apenas 8cm de comprimento, promete
trazer novas discussões sobre a vida de Jesus Cristo. Karen King, pesquisadora
da Universidade de Harvard e especialista em primórdios do cristianismo,
apresentou ontem, durante um congresso em Roma, um fragmento datado do século 4
em linguagem cóptica antiga (utilizada no Egito na época do Império Romano) que
mostra uma frase nunca vista das escrituras sagradas. “Jesus disse para eles:
‘Minha mulher”. O material, rasgado, não mostra o resto da frase, escrita
com tinta preta e letras pequenas. No entanto, logo abaixo da linha que
menciona uma possível mulher de Jesus, o papiro inclui outra frase: “Ela será
capaz de ser minha discípula”. Na frente e no verso do documento há outras nove
linhas legíveis, que trazem sentenças soltas como “Quanto a mim, eu vivo com
ela” e “Maria é merecedora”, o que pode fazer referência a Maria Madalena,
personagem citada no Novo testamento.
Apesar de King deixar claro que o documento não pode ser considerada uma prova de que Jesus foi casado, a descoberta tem o poder de reacender a discussão sobre se Jesus e Maria Madalena mantiveram um relacionamento, como já foi defendido por alguns estudiosos do cristianismo. “A tradição cristã afirma que Jesus não foi casado, mesmo não havendo evidência histórica confiável para dar suporte a essa afirmação”, diz Karen King em um vídeo feito para divulgar o achado. “Esse novo texto não prova que Jesus foi casado, mas nos mostra que alguns cristãos acreditavam que ele foi”, complementa.
As análises feitas pela historiadora indicam que o texto é provavelmente uma cópia feita no século 4 de um texto escrito originalmente dois séculos antes, supostamente em grego. Nesse caso, o evangelho da mulher de Jesus, como tem sido chamado o documento (leia Três perguntas para), mostraria que o debate sobre se Jesus foi ou não casado ganhou força justamente no momento em que os cristãos debatiam casamento e celibato.
Segundo a historiadora de Harvard, somente por volta do ano 200 é que foi afirmado, em texto registrado pelo teólogo Clemente de Alexandria, que Jesus não se casou. Na época, havia uma discussão sobre se os cristãos deveriam se casar ou viver no celibato. Segundo Clemente, cristãos da época afirmavam que o casamento havia sido instituído pelo demônio. “Os cristãos discordavam sobre se era melhor se casar. No entanto, esse debate aconteceu apenas um século depois da morte de Jesus. Os fiéis, apelaram, então, para o estado conjugal de Jesus para suportar suas posições”, afirma King.
Autenticidade Especialistas em história, como Roger Bagnall, diretor do Instituto de Estudo do Mundo Antigo, afirmaram acreditar na autenticidade do documento depois de analisá-lo. Segundo Bagnall, os exames realizados no material e na caligrafia comprovam que o papiro não é uma fraude. “Seria impossível forjar (o documento)”, reforça Anne Marie Luijendijk, professora de religião da Universidade de Princeton, em artigo publicado na Harvard Magazine. Mesmo assim, o objeto ainda vai passar por mais testes, inclusive para comprovar a composição química da tinta.
O fragmento faz parte da coleção particular de uma pessoa que pediu aos pesquisadores para não ser identificada. Ela procurou a Universidade de Harvard para que o texto fosse traduzido e, assim, acabou revelando o primeiro manuscrito histórico que levanta a possibilidade de Jesus ter sido casado. “A descoberta desse fragmento nos oferece uma razão para repensar o que achávamos saber e nos faz questionar o papel que o status conjugal de Jesus teve historicamente nas controvérsias dos cristãos antigos sobre casamento, celibato e família”, defende King. “O evangelho da mulher de Jesus mostra que é possível dizer, com certeza, que alguns cristãos acreditaram que Jesus foi casado. Essa potencial conclusão traz implicações importantes que mostram como os antigos cristãos olhavam para o casamento, para a sexualidade e para a reprodução”, completa.
Estado de Minas, 19/09/2012
Fragmento escrito em idioma do Egito foi cedido a uma historiadora de Harvard por colecionador de antiguidades. Texto não traz dados confiáveis sobre figura histórica de Cristo, mas mostra debate entre os antigos cristãos
À primeira vista, parece que o enredo do best-seller "O Código da Vinci" virou fato: um fragmento de papiro que provavelmente data do ano 350 da Era Cristã retrata Jesus usando a expressão "minha mulher". É bom ir devagar com o andor, contudo. Segundo a historiadora da Universidade Harvard (EUA) responsável pela análise do texto antigo, que ela apelidou de "Evangelho da Mulher de Jesus", o fragmento não traz informações confiáveis sobre a figura histórica de Cristo, já que a narrativa quase certamente teria sido composta séculos depois da morte dele. O que o texto mostra, no entanto, é o intenso debate sobre os prós e contras do sexo e do casamento nos primeiros séculos do cristianismo -uma controvérsia que ainda deixa marcas em temas como o celibato dos padres ou a ordenação de mulheres.
O "Evangelho da Mulher de Jesus" vem a público com uma aura de mistério, além da inevitável polêmica que o tema do fragmento traz. Sua procedência é desconhecida. Sabe-se apenas que, em 2010, um colecionador de antiguidades (cuja identidade está sendo preservada) mandou um e-mail para Karen King, especialista em cristianismo antigo da Escola de Teologia de Harvard.O colecionador queria ajuda para traduzir o fragmento -uma única folha de papiro, medindo 8 cm de largura por 4 cm de comprimento. O texto foi escrito em copta, idioma descendente da língua dos faraós que era falado pela maioria dos egípcios na época do Império Romano (e ainda é usado na liturgia dos cristãos do Egito).
No ano passado, o dono do papiro deixou-o com King. A pesquisadora pediu a ajuda de outros especialistas em papiros e na língua copta e decifrou o que restou do texto (veja quadro acima). A descoberta foi anunciada pelo jornal "New York Times". Os fragmentos dizem, entre outras coisas, "Maria [Madalena?] é digna disso" e, logo depois da menção a "minha esposa", "ela será capaz de ser minha discípula" e "eu habito com ela". Dá para esperar um debate acadêmico feroz em torno do manuscrito. Entre os especialistas que revisaram o artigo da revista especializada "The Harvard Theological Review" no qual está a análise do manuscrito, dois chegaram a questionar a autenticidade do material.
Outros especialistas em papiros, no entanto, ressaltaram que o padrão de manchas e fibras marcadas por tinta, já esmaecidas, seria difícil de forjar. A datação do texto, por ora, é indireta, baseada no estilo da escrita. Já se sabe há tempos que o Egito foi palco de uma imensa diversidade de ideias nos primeiros séculos do cristianismo. Prova disso é a "biblioteca" de textos cristãos de Nag Hammadi, descoberta em 1945, na qual predominam os chamados textos gnósticos -corrente de pensamento para a qual o mundo físico é obra de divindades malévolas, e não de Deus.
Vem de lá o Evangelho de Filipe, também em fragmentos, que mencionaria Jesus beijando Maria Madalena, que a cultura pop atual vê como mulher de Cristo. Nos primeiros séculos depois de Jesus, os cristãos estavam divididos sobre como lidar com o sexo e o casamento. Uns, como o apóstolo Paulo, defendiam que o celibato era a melhor opção. Outros, que os melhores candidatos a líderes da igreja eram os homens casados. E havia ainda os que condenavam qualquer contato sexual. No caso de Jesus, o mais provável é que ele tenha mesmo sido solteiro.
Reinaldo José
Lopes, Folha de São Paulo, 19/09/2012
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