Sou
um ardoroso defensor da laicidade do Estado, mas receio que ela não possa ser
estendida para eleições, como parece querer boa parte dos intelectuais e
políticos mais à esquerda. Não me entendam mal. Também eu gostaria que questões
de fé, como a filiação religiosa dos candidatos e suas posições em relação a
aborto, eutanásia etc. (que não são assuntos da alçada do Executivo ou de
prefeituras), não influíssem no pleito, mas, para fazê-lo, precisaríamos
eliminar o povo do processo de escolha, o que provavelmente é uma má ideia. Ao
contrário de juízes e outros servidores públicos, que precisam justificar
racionalmente suas decisões, o eleitor deve satisfações apenas à própria
consciência. Se, para ele, o fato de o postulante ter vínculos com esta ou
aquela igreja faz diferença, não há como objetar a que leve isso em
consideração na hora de votar.
Voltando à democracia, precisamos abandonar a noção de que ela funciona porque cidadãos se debruçam sobre os problemas e, após cuidadosa análise, escolhem as melhores propostas. Esse modelo existiu apenas na cabeça de alguns filósofos do século 18 e do TSE. Democracias dão certo principalmente porque canalizam para formas menos violentas os conflitos existentes em qualquer sociedade.
Helio Schwartzman,
Folha de São Paulo, 03/10/2012
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